5 Poemas de Paty David (Colômbia, 1987)

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Curadoria e Tradução de Floriano Martins

Paty David (Colômbia, 1987). Professora, poeta e escritora. É formada em Estudos Literários pela Universidade Pontifícia Bolivariana de Medellín. É aluna do Mestrado em Escrita Criativa pela Universidade Internacional de La Rioja. Foi convidada para diversos eventos literários, festivais de poesia e feiras de livros nacionais e internacionais. Autora de vários livros de poesia: Paranormal Poems, In-Material Line, Blue Bonfire e Routines. Atualmente, trabalha em um livro intitulado The Silence of the Clouds, Incomplete Logic, entre outros.

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Um ser nascido nas entranhas da Terra, entre pastos, florestas e estradas poeirentas, dedicou-se à escrita poética. Jovem, já manifesta em suas composições o que se chamou nervo e músculo. Um ser que se pergunta sobre o que não sabe quem é, e que só a terra compreenderá quando a ler. Há uma relação estreita com o amor como lança e pergunta, como despejo e bandeira. Esse olhar orgânico onde a árvore fala e o caminho respira. Sua obra é tecida sem pressa. Sua linguagem é simples, íntima, quase coloquial, mas com uma profunda convicção de deixar em cada texto, assim como a palavra insinua, um testemunho vital. O amor é recorrente nela, mas não são amores açucarados, de palavras enjoativas e banais. São amores das profundezas, feridas, silvas, espinhos, gestos doloridos, um amor de busca nas raízes da alma, se é que a alma alguma vez deixa raízes visíveis. Paty é um ser expressivo, não apenas em suas palavras, mas também em seus gestos e em seu rosto. Há força e convicção no que diz. Às vezes, parece estar em transe performático, com as mãos cerradas e o riso livre. Sabe que o corpo é um abismo, como se lançar no abismo de um beijo; todo o seu corpo se torna transparente, um anjo de cristal entre sementes de girassol e lulas. Paty David continua seu caminho; os poemas que apresentamos hoje foram doados por ela para esta edição.

FERNANDO CUARTAS ACOSTA


ESTACAS

Caí de volta para onde minha cabeça explodiu,
e não sei se é dentro ou fora.
Paredes de olhos me observam,
com minhas patas de esquilo eu vou escalar
e pular para o outro lado…
É hora de fechar os olhos
e sentir o sangue de roedor circulando em minhas veias…
Ouço o alarme,
meus medos aumentam, desgrenhados
e corro como loucos
para fora da porta dos fundos.
Não sou mais um esquilo,
sou um pedaço de papel com estacas
na cama.


DELICADA DE TANTO ESQUECIMENTO

Escrevo ao calor de um abraço,
ao tremor da minha nudez na grama,
à embriaguez do mistério,
ao vento,
ao medo,
às cores do céu,
ao eco das montanhas,
à ausência da paixão,
à dor,
à fantasia…
Estou doente;
delicada de tanto esquecimento
e sobrevivo escrevendo.


DESTINO

A aranha estava na minha cozinha,
tinha uma ampulheta desenhada,
senti medo,
pensei em seu veneno,
e joguei a vassoura para matá-la.
Tardiamente, me arrependi,
quebrei três de suas patas,
rasguei suas entranhas.
Esqueci a debilidade de seu veneno,
sem nenhum efeito significativo sobre mim.
Ela usou as patas restantes,
tentou correr.
Atormentada,
me perguntei se era macho ou fêmea,
se tinha família,
ovos,
se era uma canibal sexual…
Enlouqueci de tanto imaginar,
e a arrastei com a vassoura para a calçada.
Pisquei,
e vi a cabeça da aranha
entre a boca de uma lagartixa
que, desequilibrada,
tomava um suave banho de sol.


SENTENÇA

A sentença é somente para mim,
porém ambos somos culpados:
tu, por me tirar do poço e me abraçar;
trepadeira silvestre,
e eu, por me deixar levar pela beleza,
pelo coração,
por uma floresta invadida por cigarras…
Os dois somos culpados:
tu não deixaste a morte me salvar,
e eu, por lhe dar minha mão pálida e fria…
Então,
que minha sentença seja às duas da manhã,
com meus pés descalços em um riacho,
com as tuas mãos cobrindo meus seios,
e o toque de asas negras em meu dorso.


DELÍRIOS FEBRIS

A andorinha voa alto,
fazendo coro às ondas de verão,
e nada sabe de mim.
Nos galhos dos eucaliptos,
bandos de urubus descansam de seu banquete;
observo seus movimentos da minha janela,
sei que não me veem.
Os bambuzais balançam
como bêbados afligidos pelo sol,
e a copa dos chapins-carvoeiros
dança com seus estames roxos.
Sei que não se importam comigo,
ou com esta febre que me consome como brasa.
Deliro,
sou cinzas entre asas de insetos.
O céu espumoso ilumina o horizonte
dobrado por cordilheiras;
estradas empoeiradas,
águas impuras,
morros feridos pela humanidade.
Porém nada meu os inquieta,
nem esta febre que torna minhas bochechas
pedras quentes,
nem meu coração; fruta vermelha
guinchada por um esquilo
afundada entre folhas mortas.

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