Curadoria e tradução de Gladys Mendía
Aura Guerra-Artola (Manágua, Nicarágua, 1986) é escritora e poeta. Estudou marketing e publicidade na Universidade Thomas More, em Manágua, Nicarágua. Formou-se como Chef de Partie na GalaStars Culinary em Manila, Filipinas, e cursou Gastronomia e Alta Cozinha no Instituto Gastronômico das Américas, em La Paz, Bolívia. Participou do Laboratório de Romance da Nicarágua, geração 2020–2021. Integra diversas antologias, digitais e impressas, na Nicarágua, México, Chile, Argentina, Colômbia e Peru. Recebeu menção honrosa no Concurso de Escrita 2023 da Seção de Estudos Hispânicos da Universidade de Montreal. Possui quatro obras publicadas: Jack’s Life in the Box (Canadá, 2020); Las Dolorosas (Editorial Flor de Mezcal, México, 2022); Nefelibata (Coleção Ysiacabuche, Editorial La Chifurnia, Honduras, 2023) e a plaquete Carne cruda entre mis huesos (Periódico Poético, México, 2023). Atualmente vive em Alberta, Canadá, é locutora da Rádio Poesía e membro ativo da Foothills Writers Association.
TÚNEL DE VAGA-LUMES
Os habitantes mastigam
as cinzas
de uma cidade murcha
pelo descarte do capricho.
A dor apodrece sobre suas línguas,
queima,
é forno de asfalto
onde ferve
a juventude soterrada
sob o murmúrio de seus sonhos.
Os jovens rezam ladainhas
de suas últimas forças
— seu rogo afônico não se ouve na terra —
caçam vaga-lumes,
procuram um túnel de luz
para escapar
dos escombros
onde ruas dormem
cansadas de esperar
uma trégua
que as desperte.
A QUE FALTA
Na minha casa vazia,
as camisas esqueceram meu tamanho,
traças devoram o tecido por pena.
Para desfazer seu esquecimento,
o devoram aos pedaços;
os farrapos caem sobre meus sapatos vermelhos
e acumulam migalhas.
Já não há quem os leve a passear
pelo corredor,
esse lugar, agora árido,
onde o vento levantava fadas mágicas
quando o sol iluminava o pó.
As fadas, em queda solene,
se desfaziam no ar perfumado de limoeiro,
arbusto teimoso
que ainda espera
esconder crianças entre sua folhagem.
Eu também um dia me escondi
no desejo de ser invisível.
Sempre me rondou
o capricho de desaparecer,
agora me ronda
o ímpeto de fugir do tempo
como aquele marcado
pelo relógio da velha cozinha
que anuncia minhas horas ausentes
às lagartixas.
BUQUÊ
Ele me cobriu de oferendas
de perdão murcho.
Veio com gérberas,
abri-lhe a porta.
Trouxe lilases, calou perguntas;
ofertou lírios ansiosos por reencontros
e rosas azuis marcaram, coloridas,
a trilha até meu leito.
Fiou teias de absinto,
amordaçou minha angústia com cravos,
alegrou meu rictus de tristeza
com margaridas
e enterrou sua culpa sob gardênias
onde também ocultou o sol
para ignorar o amor
fermentado nas fendas
da minha cintura.
Gladíolos revestiram o fedor de insultos frescos;
suas pétalas, choro pesado sobre a relva,
encharcaram as raízes dos meus gritos.
Agora o jardim revela
o perfume contrito da minha morte.



