3 Poemas de Gabriela Kizer (Venezuela, 1964)

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Curadoria e tradução de Gladys Mendía

Gabriela Kizer (Caracas, Venezuela, 1964) é poeta e professora de Literatura na Escola de Artes e no Mestrado em Literatura Comparada da Universidade Central da Venezuela. Publicou os livros de poesia Amagos (2000), Guayabo (2002), Tribu (2011, Prêmio Internacional de Poesia José Barroeta) e Pavesa (2019). A memória, a herança familiar, a pertença a uma terra com suas tradições e afetos são os temas em torno dos quais gira En falso (Visor), o livro mais recente de Gabriela Kizer.


PORTO AZUL

Vocês se escondiam atrás das pedras do quebra-mar.
Você era loira, talvez ainda seja.
Vocês andavam de mãos dadas, de noite e de dia.
Vocês sorriam sobre raspadinhas de fruta
e corriam como crianças à beira-mar.
Era o tempo de esconder cigarros
nas frestas de uma parede precisa.
Até onde chegava o assombro apavorado?
Até onde o deleite das mãos já soltas?
Até onde o sol, o musgo, o embate das ondas,
as vozes distantes, o gesto repetido do caranguejo?
Eu sonhava isso.
Ponto por ponto, eu sonhava.
Mas não sei o que sonhava.
Meu prazer é feito dessa incógnita.


O VIVO

Famintos de menos,
disponibilizamos cada noite
o sonho de nossos restos.
Fazemos isso com doçura,
falando sobre qualquer coisa.
Que instante nos deterá?
Haverá calor, chuva?
Agora, nada nos orienta.
Nem mesmo a penúria que impomos ao coração,
nem mesmo seu peso morto sobre os ombros.
Sombras enfraquecidas, nostálgicas
de sangue e de destino,
vagueiam zumbindo pela casa
que se tornou invisível.
Não conseguimos conter suas paredes
nem mudar os quadros de lugar.
Ainda temos nome?
Não chega aqui a melodia
que faz Tântalo esquecer a fome,
nem os passos da moça que caminha sem cessar
e conhece a fenda da sombra na luz.
Nem a graça nos resta
do grão impossível de regurgitar.
Abre os olhos.
O mofo se acumula por toda parte
e os pés nos escapam — sem cairmos.
Até nossos sussurros ficaram turvos.
Escuta.
Já não terminou o terço do ano,
o encontro irremediável com o fútil
que resta do vivo?
E o vivo — a vibração da larva
no pântano, da espiga;
a memória do antigo espelho de mão,
da seda colada à transpiração;
os sabores entranháveis e repugnantes —,
o encontro irremediável com o vivo?
Porque uma coisa é o fim, e outra
é subtrair fragrância ao devir.
Escuta.
Nem Leteu nem sangue inundam a garganta.
Ter perdido o gosto pela água
nos salvou, ao menos, de bebê-la.
Procuro meus passos, que estão perdidos
e não trazem mensagem de outro mundo.
Procuro a flor rachada, docemente dissolvida,
entende? E um pouco de terra pastosa
onde fermentar essa névoa,
e um vinho seco para as tardes
e as contusões.


SETE VIDAS

Conheci a tristeza
numa manhã chuvosa de janeiro
pouco antes de fazer cinquenta anos.
Eu, que achava saber de tudo,
compreendi de repente que meu amante
não me queria tanto quanto dizia.
Meus olhos não se encheram d’água
(isso já havia ocorrido na tarde anterior
e na anterior também).
Apenas passei um pano com Maderol
na mesinha indiana da sala
e depois um pano seco
pra que não grudasse o maço de cigarros.
Mas foi um gesto cético, quase frio.
Olhei suas luminárias e o amor
com que as tinha posto há tão pouco tempo.
Soube também que a palavra “melecar”
é um americanismo e não consta
no Dicionário da Real Academia.
Repassei sua pele, seu ser, seu rosto,
todo seu corpo na memória,
e reconheci o quanto eu o conhecia.
O quanto e como o conhecia.
Mas deu preguiça de buscar a palavra
que refletisse essa intensidade.
A gente tem direito às próprias vinganças,
disse a mim mesma.
Durante toda a manhã
o sol saía e se escondia.
Soube, por fim, que continuaria a buscar nos seus olhos
a palavra definitiva,
que meu amor não cairia de pé.
Pensei nos amores que têm sete vidas
e tentei precisar em qual estávamos.
Talvez na quinta, disse a mim mesma,
restam duas.

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