8 Poemas de Sabrina Ramos Rubén (Porto Rico, 1985)

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Curadoria e tradução de Floriano Martins

SABRINA RAMOS RUBÉN (Porto Rico, 1985). Escritora, curadora de artes visuais e tradutora. Publicou os livros de poesia Mangle rojo (La Secta de los Perros, 2016) e Charco hondo (Alayubia, 2018). Ramos Rubén é bacharel em História da Arte e mestre em Tradução pela Universidade de Porto Rico, Recinto de Río Piedras. A Ugly Duckling Presse publicou Song of the Absent Brook, uma seleção de seus poemas traduzidos para o inglês por S. Yates Gibson. Além disso, em 2024, ganhou o Prêmio Pen/Heim de Tradução, juntamente com Verónica Dávila de Jesús (editora), pela tradução para o inglês de La víspera del hombre, de René Marqués. Atualmente, é professora do Programa de Teoria da Arte, no Campus Universitário de Mayagüez, e diretora da Galeria María Luisa Penne del Castillo.


ORNITOMANCIA

Um pintinho caiu no chão
com suas penas ainda úmidas de vida.
Jazia sobre a grama seca e amarelada.
As moscas e formigas
percorriam seu cadáver.
Um pássaro morto,
a orelha do tempo
vista de repente por um jovem ingênuo.


*****

Seus dedos mansos
como um veado que se aproxima
e bebe nas margens.
Um de seus chifres
perturba, levemente,
a corrente.


*****

Agora encontro a dignidade:
ela aparece em peles amargas de cebola,
cantos desolados da luz.

O sorriso do esqueleto,
marcado pela ausência,
é pão
e a terra
tem mandíbulas de fogueira.

Por isso digo vento
embora doa.
Ou melhor,
cinzas.


*****

Digo: “as vozes que se afogam no túnel”.
Murmúrios quebram os ecos
no túnel sombrio de calcário.

É inútil jogar uma corda:
desatar o fácil espanto
ao perder
a luz sobre sua clavícula,
a firmeza sinuosa de seus braços,
a serenidade azul em seus olhos.

Nem mesmo o mar responde mais.

Esta tarde
tudo depende da umidade na luz.


*****

Querias
me sufocar
nos redemoinhos de teu ventre.
E que minhas lascas flutuassem
mudas
ao longo de teus canais.
Eras
uma menina do campo
lançada
sem piedade
à enchente.
O que sabias sobre polir presas
diante do golpe áspero
da enxada?
Que caminho afogado
traçaste em alto mar
com tuas unhas?
Que remédio
além de ranger os dentes
e engolir salitre amargo?
Lutar.
Afogar-me na areia
embranquecida
de ossos limpos
pela seca
e, entre fogueira de borbulha e maré alta,
fugir.


*****

Só resta passar a taça
aos filhos murchos do abandono —
répteis acinzentados
que espreitam
copas
dobradas de mato.
Condenar a carne
a ser papel rasgado,
uma espécie de vapor
entorpecido.
E confundir-se
entre folhas secas
eternas como a infância
ao longo
e além
do pequeno litoral
imortal.


*****

Que alegria se derrama
através dos poros de uma pele
acidentada?
As rugas escalam a margem
luminosa do pôr do sol.
Pousam em cavidades.
Olham com desafio
a borda do crepúsculo.
O que é a vida
senão carne que se machuca
durante a descida?
Odre vazio:
ídolo de barro para pés
ocos.


*****

As cristas da maré baixa
diminuem e se dilatam
entre os braços
da madeira empalidecida.

Nuvens negras no interior
prometem um ossuário liso
de animais mortos rio acima
espalhados entre as dunas escurecidas
e troncos de raízes à deriva
rasgando
o leito plano e as margens.
O vento cinzento entrelaça o sedimento
com as correntes marinhas.

Teus pés
sangram a escuridão do lodo.
Desaparecem entre
túmulos de ossos
e lenha embranquecida.

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