Curadoria e tradução de Floriano Martins
Zoila Capristán (Peru, 1965) estudou Contabilidade e Finanças na Universidade Nacional de San Marcos, além de Direito e Ciências Políticas. Também possui mestrado em Direito Penal. Em 2010, publicou a coletânea de poemas Bajo Cero. Seus poemas foram publicados em diversas revistas e jornais da América Latina e do mundo. Em 2021, publicou a coletânea Palabras que Reservo para las Tinieblas. Em 2023, publicou Canta en mi naca el Ruiseñor. Suas duas obras mais recentes foram reconhecidas pela crítica literária como alguns dos melhores livros publicados no Peru. Ela é diretora e editora da Editora Vagón Azul. Cineasta, diretora e roteirista, codirigiu o documentário de 2013 Leoncio Bueno Entre el Fusil y las Rosas.
O HOMEM MAIS BONITO DO MUNDO
Ele vestia uma túnica preta bordada com dragões dourados,
seu peito brilhava como um escudo contra o sol,
seus cabelos eram longos e lisos.
Suas costas eram tatuadas com serpentes míticas
e carpas koi,
seus pés calçavam sandálias de prata perfeitas,
o vento ondulava sua cintura majestosa.
Seus olhos amendoados contemplavam o pôr do sol sobre o mar,
eu o observava, deslumbrada,
escondido atrás de uma roseira.
Sua aura era como uma adaga reluzindo ao sol,
sua pele, com bordas afiadas como facas, podia cortar a brisa com sua ferocidade.
Passei a língua pela nuca dele.
Quando o homem mais bonito do mundo decidiu partir,
vi a espada que carregava nas costas,
o que fez meu coração estremecer.
Eu me perguntei:
A qual clã Yakuza pertence o homem mais bonito do mundo?
MINHA CASA EM FOTOGRAFIAS
Minha casa era feita de juncos
Que cresciam perto de um rio
Meu pai selou todas as frestas com lama
Ele não deixou uma única janela
Minha casa tinha apenas um portão
Que não permitia a entrada de ninguém.
O sol entrava pelos buracos enferrujados nas chapas de zinco
Fiquei paralisado diante daquela luz que parecia uma estrela
A estrela que desabrochou daquele pequeno buraco
Aqueceu as palmas das minhas mãos
Descobri pequenas figuras e arco-íris
Brilhando dentro delas.
Minha casa tinha um espinheiro
Que prodigamente espinhos
Para drenar o pus das minhas feridas,
Nunca deu frutos
Mas foi uma mãe adotiva
Para os pássaros que faziam seus ninhos ali
Para os abutres que me visitavam à tarde
Sem que ninguém percebesse.
Depois de alguns anos, caminhei pela casa da minha mãe.
Ela queria apagar meus rastros.
Derrubou as paredes de pau a pique onde enterrei meus tormentos.
Minha casa não existe.
Minha casa está apenas na minha memória.
Na fotografia.
RITUAL DA MISSA NEGRA
Na beira da Ponte Vermelha,
águas negras fluem.
Elevam-se furiosamente à minha presença.
Pedra sobre pedra, trovejam contra a corrente.
— Decifro sua mensagem do ventre.
A de cabelos emaranhados diz que a Ponte Vermelha nunca existiu.
— Você apenas sonhou com ela.
Afirma uma irmã.
Treinada no vício da manipulação.
Aqueles que contam histórias ao redor de uma lamparina de querosene.
Dizem que, numa noite dos anos 80,
depois de três dias seguidos de chuva,
nas terras altas de Contumazá,
a água se acumulou em riachos sulfurosos,
formando o desfiladeiro feroz.
A chuva descascava as encostas,
e um poderoso deslizamento de lama desceu,
que submergiu o ferro da Ponte Vermelha,
e suas vigas caíram como farrapos,
como a tempestade que, sem razão,
arranca as pétalas das flores.
Não acredito neles. Ainda ontem à noite, quando as corujas piavam alto, atravessei a ponte vermelha. Vi Inés passando. Ela disse: ‘Vou me banhar no rio agora que a lua brilha como se fosse dia.’ Aurélio assobiava a caminho de casa para jantar com a mãe. Quando cheguei ao fim da ponte, não desci os degraus onde eles estavam. Virei do caminho em direção aos campos para ver as ciganas, aquelas a quem eu costumava deixar roubar mercadorias da loja. Procurei-as na tenda azul e estendi as palmas das mãos. Com gestos de horror, elas se recusaram a ler minha sorte.
Não acredito neles. Ontem à noite, quando as corujas piavam alto, eu atravessei a ponte vermelha. Virei-me e saí do caminho para ver as ciganas, aquelas a quem eu costumava deixar roubar mercadorias da loja. Procurei-as na tenda azul e estendi as palmas das mãos. Com gestos de horror, elas se recusaram a ler minha sorte.
Não acredito neles. Ainda ontem à noite, quando as corujas guardavam seus cantos, atravessei a ponte vermelha. Vi Inés passando. Ela disse: Vou me banhar no rio agora que a lua brilha como se fosse dia. Aurélio estava assobiando a caminho de casa para jantar com a mãe. Quando cheguei ao fim da ponte, não desci os degraus onde eles estavam. Atravessei o caminho em direção aos campos para ver as ciganas, aquelas a quem eu deixava roubar mercadorias da loja. Procurei-as na tenda azul e estendi as palmas das mãos. Elas, com gestos de horror, recusaram-se a ler minha sorte.
Não acredito neles. Eu… eu caminho descalço novamente pelas bordas estilhaçadas da ponte vermelha.
Todos os versos não escritos ecoam vazios em meus ouvidos.
Eles não são mais minha tábua de salvação.
Perderam a luz que acendiam em mim.
Pessoas e coisas.
Falta-lhes espírito.
São inúteis como minha poesia.
Estou coberto de chuva e medo. Encharcado e tremendo, espero que a ponte vermelha se estilhace. Como um ritual de missa negra, que desabe com este poema.
Faltou um beijo.
Faltou um beijo.
Como uma gota d’água.
Para acalmar a ferida.
No espírito sedento do cadáver.
Vamos desenterrar o corpo.
Ainda livre de moscas.
Antes que a terra o tenha devorado.
— Não enterrem o cadáver com o coração despedaçado.
FEITIÇO
A rosa provoca uma revolução ao embelezar o pedaço de terra que habita; naquele instante, ignora o grasnar do abutre e a devastação dos insetos. São insignificantes quando se contempla o desabrochar de uma flor, quando sua fragrância é parte do todo, e o espaço e o vazio ondulam. Amanhã, quando o TEMPO tiver passado, será uma pétala que o outono carregará para além do trecho onde floresceu, para exaltar o pulsar da terra.
Já viste como um ser vivo valoriza seu último suspiro?
Contemple a destruição vinda do mar, da crista da onda, e embora teus olhos não alcancem o fundo do abismo, aquele tremor que percorre tua espinha conhece o horror que ele contém. Hölderlin, purificado do coração, levanta-se, os apetrechos da loucura rodopiando em seus pensamentos: a demência assola os corredores do hospital; o avental branco como água sanitária que me colocaram ao entrar são os restos mortais da louca que jaz no necrotério; Os sapatos deformados e cheios de buracos formam uma massa disforme e canibalística; aquela mulher que se aproxima e cresce gigantesca como uma sombra que obscurece o ser fala incoerentemente e atordoa os sentidos; esta caverna no ralo poderia ser um receptáculo para o desvio. Quem paga a conta dos comprimidos para dormir? Seriam os donos das empresas farmacêuticas os senhores do Estado? É um fardo demasiado pesado para um ser humano viver no horror desta ilha suspensa em encantamento.
Quem habita os sonhos, eu ou a minha sombra?
Eu te mostrarei, meu amor, o aqui e agora. O instante em que saboreias um figo como uma flor deliciosa, quando beijas lábios úmidos, quando a rosa de fogo te permeia. Deixa a tua mente preservar este momento: o aqui e agora em que tens consciência de inspirar e expirar o sopro divino da vida. É o instante de apreender o amor e a beleza do mundo.
CORTE OS FIOS
Pés sangram
em pedras afiadas
imitamos o voo dos pássaros na noite índigo
braços imitam as cobras
que vão morder os olhos
do flautista hipnotizado.
Estenda uma toalha de mesa sobre o caixão
dance sobre essa realidade
quando baterem à porta
corte todos os fios e
acenda a vela
e diga, cinicamente:
—Está tudo bem, está tudo calmo.
sem baixar o olhar.
Na estrada que leva ao matadouro
ilumine como um vaga-lume o açougueiro
faça-o cair com o machado
no poço de sangue.
O eco cresce
como o sussurro de uma asa batendo
sua voz cresce, homem impalpável
em meu coração ardente.



