3 Poemas de Sebastián Miranda Brenes (Costa Rica, 1983)

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Curadoria e tradução de Floriano Martins

Sebastian Miranda Brenes (Costa Rica, 1983). Escritor e gestor ambiental. Participou de festivais internacionais de poesia em diferentes países da América Latina. Seus poemas e ensaios foram publicados em importantes revistas eletrônicas, como Vallejo&Co e New York Poetry Review. Publicou os livros: Antimateria (primeira edição na Coleção Cadernos AmerHispanos, San Luis Potosí, México, 2013 e sua segunda edição em edições FruitSaladShaker, Costa Rica 2022), El sudor de la morfina (edições Fruitsaladshaker, Costa Rica 2020) e Luminiscencia (Livro 1), em uma coedição com as edições New York Poetry Press e Fruitsaladshaker, Costa Rica 2022.


CONTRALINHAGEM

para Juan Carlos Oliveiras

I.

Minha linhagem não será um mar
que desenha símbolos na cordilheira
nem os rastros de albatrozes no ar

tampouco será como peixe
bicando os ganchos de metáforas
nem a espuma de um transatlântico
quando se rompe o gelo das geleiras

no máximo
minha linhagem
será um coração
feito uma âncora emaranhada no sargaço
ou um barraco velho
na beira de um penhasco
mal suportando as pancadas da tempestade

II.

o oráculo previu outro destino
tua linhagem será acompanhada
por uma filha da água
e um filho do sol

será coberta pelo sal dos mares vindouros
e pelos pelicanos de outras costas

interromperá a migração das aves
que buscam pousar nas mãos de uma virgem de pedra

tua linhagem
suportará o peso de um céu pintado
que irás construir como as colunas do Parthenon
e será um sinal em outras línguas

Será um ponto que marcará o relógio de outros tempos
será a estrela que evite
que os futuros navegadores da palavra
                                                                                encalhem

III.

em algo concordamos
nossa linhagem transcenderá as feridas das mãos
pois ambos
tentamos deixar por herança
                                                                    a ternura


ANTROPOCENO

Após a devastação
caminhou pelo deserto
sentou-se na beira de um penhasco
olhou para o vazio entre as ruínas
a extensão do silêncio como uma fileira de poeira

sua suposta quietude a paralisou
a inércia da planície
a secura que partia os lábios

contagiada pela aridez
seus olhos se tornaram areia
seu corpo foi se desintegrando
tornando-se parte do solo
e rastejou para o túmulo de suas mestras
que a abrigaram sob sua sombra
enquanto sussurravam seus nomes passados
e expiavam seus pecados

após habitar
os vestígios de um mar antigo
Ela
ele abandonou seus desejos sob a terra
arrancou suas verdades
e as enterrou em ninhos de cobras

deu de cara com as deusas que levavam seus olhos
elas lhe falaram como um demiurgo
decifraram a linguagem da destruição
e a dor das espécies mortas

pegaram-na em seus braços
deixaram-na à margem de um riacho
onde saciou a sede de meses

Ela
compreendeu
que após o colapso
tudo renasce
em vez de extinguir-se


DAVI

Recordas o dia da notícia?

Na sala de espera
a tv em silêncio
meu arquivo em tuas mãos
os resultados do último teste

duas horas
o relógio marcava nove e meia
as enfermeiras passaram
com pacientes em cadeiras de rodas
a calça e o suéter não me eram abrigo suficiente


chamaram pelo meu sobrenome
um calafrio percorreu a espinha
respiração entrecortada
minhas mãos tremeram

o médico reclinado
e sem bom dia
pegou a pasta

disse
Davi
tens câncer
tens seis meses de vida

uma longa caminhada pelo corredor
a cidade em preto e branco
chamaste por papai
com a voz em fragmentos
tentaste suavizar a notícia

em lágrimas
eu me agarrei a sua barriga
eu queria voltar para ele
para recomeçar com tudo.

 

 

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