5 Poemas de Marialuz Albuja Bayas (Equador, 1972)

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Curadoria e tradução de Floriano Martins

Marialuz Albuja Bayas (Equador, 1972). Poeta, narradora e dramaturga. Publicou as coletâneas de poesia Las naranjas y el mar, Llevo de la luna un rayo, Paisaje de sal, La pendiente imposible, Detrás de la brisa e Doble filo. Três obras se destacam na narrativa: En caso emergencia (no) rompa el vidrio, Maura e Mi pe(o)rversión. Sua obra como dramaturga inclui o monólogo Tal vez no fue así, vencedor do concurso Casa de Las Culturas de 2023. Em 2017, a Academia Hispano-Americana de Belas Letras de Madri concedeu-lhe o Prêmio Dámaso Alonso na categoria Criação Literária. Recebeu menção honrosa no Prêmio César Dávila Andrade de Poesia (2012) e ganhou o prêmio de poesia do Ministério da Cultura do Equador (2008). Também ganhou duas vezes o Prêmio Darío Guevara Mayorga de melhor romance publicado (em 2017 e 2019, respectivamente) e, em 2024, seu livro Doble filo recebeu menção honrosa no Prêmio Jorge Carrera Andrade de melhor poesia publicada em 2024. Atualmente, colabora com a Academia Equatoriana de Línguas.


DERROTA

Quase ao final das vértebras
com a exaustão violenta de um tigre
meu amante sobe a montanha
memoriza versos intermináveis
vasculha no fim de suas memórias o que o dia aniquilou

tão perto a árvore, tão rápida a terra
não encontra galho para se segurar
e cai ferido pelo curso dessa história.

Fera, cachorro, meu amor
Não tenho nome para englobá-lo
exceto aquele que interpretarei amanhã.

Ele vem me buscar quando há uma tempestade
seu rastro, então, cheirará a poças
minhas pegadas serão lavadas
poderei me esconder nas colunas
quando a apresentação começar e sua esposa o aclamar

tão firme o chão, tão frágeis as paredes
não encontro viga para me segurar e caio ferido em meu papel
atrás da cortina.


TRECHO APÓCRIFO DO DIÁRIO DE IKUKO

Amei Kimura-san
Não vi seu rosto
nem entendi as sílabas perfeitas de seu nome
mas uma voz a multiplica na banheira
quando as paredes deslizam e eu não consigo acordar.

Amei Kimura-san em um hotel
Eu o amei em um beco triste
e contra a parede florida de outro bairro
enquanto ele ia de um amante para outro
em silêncio, na piedade da mentira.

Contive meu grito, porém não a sede
e provei o mar
um corredor de águas abertas
onde fui sombra sobre os alicerces

apenas um rastro.


SACRIFÍCIO

Ela vivia em si mesma,
entregue ao murmúrio do sangue.
Sua vontade agitava as águas,
que num instante eram diferentes,
como se o mundo acontecesse entre as raízes
onde ela me abandonara uma tarde.
Seu coração saltou ao estalar de um galho
(foi meu retorno, um som partido ao meio).
Ela deixou tudo de lado, embora amasse qualquer gesto inútil,
às vezes, minha mão, onde mantinha uma carícia
a passagem para que alguns a tocassem.

Ela desistiu de abrir a porta, fosse qual fosse a dor ou a alegria.
Rompeu com tudo em si mesma
ao entender que ondas não existem.


GEOLOGIA DA FUGA

Derrotada pelo silêncio,
tornei-me o animal ansioso que não conseguia acalmá-lo.
Fui a fratura que me separava de tudo.
perdi meu instinto de raiz
e algumas linhas.

Um dia, finalmente, caí no mar
com essa intenção absurda de afundar
porém as rochas contiveram meus fragmentos
e um vento de outra latitude transformou meu relevo.
Às vezes, quero recuperar minha condição de pluma
é tão difícil retomar as coisas simples
ferver a água, abrir a porta, deitar…

e mesmo que se pense que é possível
não há como voltar atrás.


TRIP

Os pés da mamãe, suspensos no ar, balançam
toda ela, uma lâmpada talvez à espera de algo
de repente apagada
como uma folha prestes a cair
sob seu corpo, uma seringa
mamãe em estado de levitação
não mais me ignorando ou olhando para o teto
não mais em silêncio ao me ver chegar
não mais engolindo meu nome
mamãe com os olhos arregalados
e vomitando no manto escolhido para a morte
duas bolas brancas nos olhos
um pingente de esmeralda no corpo
a pedra vergonhosa que eu não queria usar exposta
minha mãe, um pêndulo preso entre as vigas

talvez não tenha sido assim
talvez ela tenha caído da janela
e ficado presa nessa corda que agora a balança lentamente
ao sabor da brisa
ao lado de uma armadilha onde o mar ruge
de repente tingido pelo crepúsculo
seus olhos, duas bolas de luz
eu, o peso morto que a arrastou para o fundo da água

talvez ela afogada
talvez hoje, com a minha mão em sua testa,
peço que escolha um final diferente
aperto a bomba de morfina
e vou embora
como se escolher fosse o mesmo que ser livre.

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