Curadoria e tradução de Floriano Martins
William Johnston (Montevidéu, Uruguai, 1967). Poeta. Seus livros incluem: O Vento Atrás da Floresta (México, 2003); Sombra de Luz (Montevidéu, 2006); El viento detrás del bosque (México, 2003); Leve Sombra (Montevideo, 2006), Diálogo Final (México, 2010), Alaska (Buenos Aires, Colectivo Semilla, 2014), El trigal del sueño (Montevideo, 2019), Visita Guiada (Montevideo, 2020). Recebeu o prêmio nacional de poesia de seu país em diversas ocasiões — mais recentemente na categoria de publicação por Visita Guiada (2021).
[O TEMPO PASSA]
O tempo passa
como se desenhado num prato
de porcelana azul
as brisas
brincam com a metamorfose de uma nuvem
feita sob medida para outros reinos.
Estes dias terrenos e suas obrigações obstinadas.
[ENREDO]
Ao acordar,
vejo uma xícara azul,
um livro marcado em uma página precisa,
um espelho.
E a realidade tem um nome para tudo.
E tudo é uma realidade diferente.
A poesia é a arte sutil de bordar
a xícara, o livro, o espelho
através de correspondências que buscam
o possível no impossível:
entrelaçando pensamento, batimento cardíaco e memória
a esta paisagem como se fosse uma tapeçaria medieval aberta.
Não há descrição exata:
o poeta, ao entrelaçar, distorce.
o poeta, ao distorcer, acrescenta
outras ordens, os mesmos costumes, pretextos variáveis:
a xícara tem a forma de um céu buscado desde a infância.
O espelho é inflamável diante de tanta clareza.
O livro é uma onda contínua às sete da manhã.
[VOCÊ ME MATARÁ]
Você me matará/ com caligrafia como uma trepadeira intrincadamente emaranhada/ com um golpe como este/ -sem sangue- curvado/ como o voo errante de uma estrela/ então você me deitará na mesa da ressurreição/ e lentamente/ com a faca cega do hábito/ você abrirá meu corpo/ para buscar as entranhas enfeitiçadas da solidão/ a tinta que cresce como musgo no papel/ o último verso/ meu poema/ mas eu te aviso/ você só encontrará o coração em sua gaiola de ar/ as batidas do coração decapitadas pela memória/ uma natureza interior como uma trepadeira intrincadamente emaranhada/ caligrafia emboscada por veias e nervos/ e com seus dedos de louva-a-deus/ você amarrará cada uma das minhas veias aos seus sonhos/ você separará seus ossos da minha carne/ e assim,/ somente assim/ você entenderá cada um dos meus poemas de amor.
FRANCIS BACON/DUAS FIGURAS/1953
Naquela época, a morte da minha mãe
escurecia os objetos ao meu redor,
e cada um se tornava um desenho para as nuvens.
Não me lembro bem onde nos conhecemos.
Certamente, em um daqueles dias
em que o acaso
era uma das equações benevolentes do universo.
Fizemos amor até que o desejo
se tornasse uma questão da alma, e então
você contava anedotas, sonhos persistentes,
enquanto eu me perguntava por que a vida
tinha aquela leveza
como se o mundo fosse uma lebre
prestes a ser abatida.
ET IN ARCADIA EGO/NICOLÁS POUSSIN/1638
O calor devorava o ar em grandes goles.
As mulheres da casa conversavam
animadamente sobre os casos amorosos dos homens.
Preparavam o almoço. O tilintar dos pratos somava-se aos aromas ancestrais da cozinha;
Enquanto os homens, no jardim,
sentados à sombra de grandes eucaliptos,
bebiam cerveja
e discutiam o último clássico — a mesma cena se repete desde a infância.
Apenas um detalhe: alguém colocou
num prato de cerâmica
no centro da mesa, um punhado de figos.
E isso me lembra daquela cena:
o calor engolia a noite em grandes goles
quando saíamos do cinema, entre amigos e a margem do rio
que precede toda tempestade
quando a lua era um punhado
de figos num prato de cerâmica.
Estávamos discutindo
o gol do Artime contra o Estudiantes — um clássico que estava na ponta da língua.
Um dos amigos, talvez o mais sábio,
disse que estávamos ficando velhos
porque a velhice é a época
de encontrar detalhes que não notávamos antes.
Todos ficamos em silêncio.
Entendemos que esse detalhe
vale uma vida inteira;
como o raio de luz que agora
incide sobre esses figos em um prato de cerâmica.


