Curadoria e tradução de Floriano Martins
Isabela Basombrío Hoban (Peru, 1966). Poeta bilíngue e artista multidisciplinar. Natural do Peru e atualmente residente na Irlanda, escreve em espanhol e inglês. Seus livros mais recentes são Nothing Belongs to Everyone, Rain Love Death Poets e Another Kind of Abbreviation (2024), todos publicados pelas Ediciones Vitruvio. Isabela foi agraciada com o Prêmio Nuevo Ateneo Online de 2023. Este prêmio reconhece o trabalho de autores que produziram obras de significativo mérito literário e que se esforçam para contribuir com novas formas de disseminação cultural, visando alcançar um público mais amplo. O júri é composto por autores renomados. Isabela foi bolsista do Next Generation Leadership Project da Fundação Rockefeller. Ela recebeu prêmios por sua poesia da Seção de Artes do Conselho do Condado de Mayo e da Culture Irlandesa.
CARVALHO
Tu me viste no final do último capítulo
Cantando para um carvalho, sonhando um sonho
Afastando-me lentamente, sem virar as costas
E de repente, um ruído agudo
Por pouco, uma fuga afortunada,
Se me libertares, eu me refugiarei em um canto, passarei o resto dos meus anos infiltrada
Encurralada, semicerrando os olhos, observando secretamente os outros
Espiarei pela pequena abertura e te contarei o que está acontecendo embaixo da escada
Quem entrou na sala
Quem está fingindo
Cavarei para ti uma trincheira aberta
E então, em autodefesa,
Eu me tornarei uma paisagem alterada na qual
Uma borboleta imita sua respiração trêmula
Com o movimento de suas asas.
O ENCONTRO
Um movimento inconsciente e então uma quietude consciente
Uma reviravolta, uma virada
Um pouso em teus pés
Uma caminhada, uma corrida, um momento fugaz
Um pacto feito com um olhar
Um arrepio que ressoa
E outra chance
De experimentar
A energia direta
Das flores queimando
De ametistas que brilham
No chão da lua
Do encontro, teu signo, uma mudança de assunto
Uma luz fluorescente e a tua palavra se acendem
CANTO
Aquele espelho d’água
É uma sensação
De cantos feitos de névoa
Uma versão personalizada
Bem cantada de qualquer forma
Vozes que eram necessárias
Sons levados pelo ar
Invisíveis porque o vapor não pode ser impresso
As descobertas são espaço e tempo
Mas com conteúdo na forma de uma gota de orvalho
Os reflexos têm um longo tempo
Vivenciando estados especiais
Como a camada de gelo em uma lagoa
Cercada por montanhas e
Brilhando em sua verdadeira dimensão
Depois aparecerão
Mapas arcaicos e arquivados
Que o degelo revelará
FALSETE
Subaquático; ouço a tua voz em falsete
Tua voz falsa
A arte da receptividade
Rejeitando toda força externa
Aceitando toda força interna
É por isso que enlouqueço
Para evitar o esforço de abrir portas
Estou apenas de passagem, atravessando
Dando um salto
Um salto profundo
Um salto realmente profundo
Para uma onda cintilante
Para um retrato
Para o abrupto
Para uma oração vespertina
Porque a incubação é minha devoção particular
E és uma corrente subterrânea
Fluindo em direção a um ato de unção
O MAR DO DIA
O mar do dia traz
Ondas da noite
Como ontem à noite
Sol do mar
Brilho de algas marinhas
Mãos de Netuno
Passos lentos
Um abraço alienígena
Em um eu te encontro
Em outro me esqueces
Cheio de amor
Com um momento no tempo
Tempo que não me dá tempo
Para terminar este poema
ADEUS
Completamente teu
Incompletamente meu
Da noite para a manhã, em geral, terminado
Um encerramento sem precedentes
Uma saída Pesquisa
Uma opinião
Um suspiro
Que tinha gosto de geleia de ameixa
Nos poemas de antes
Mas que tem gosto de sorvete de lúcuma
Nos poemas de hoje
VEIA
Como uma cordilheira
A veia em tua mão mostra
Que estamos em uma linha
Conectados
Lá no alto
Como em vales cheios de lagos
Aqueles lagos tão profundos que não consegues ver o fundo
E aquela flor tão vermelha que sangra
Uma flor, mil espinhos
Duas lágrimas, anos demais
Incontáveis ocasiões e um transe tão profundo
Que não reconheces teu próprio reflexo



