Enrique Noriega (Guatemala, 1949)

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Curadoria e tradução de Floriano Martins

No início da década de setenta do século 20, o panorama literário guatemalteco não era muito diversificado. Na realidade, no campo da produção poética, isso se reduziu à atividade que o Grupo Nuevo Signo vinha desenvolvendo desde a primeira metade da década de 1960, formado por Antonio Brañas, Julio Fausto Aguilera, Delia Quiñonez, Luis Alfredo Arango, José Luis Villatoro, Francisco Morales Santos e Roberto Obregón. Com exceção de Brañas, o grupo era formado por poetas que – cada um a seu modo – procuravam extrair seus temas de mitologias populares, principalmente de fontes autóctones, e da cultura indígena. Poetas telúricos, por assim dizer, cuja obra influenciou indiscutivelmente o gosto literário por toda uma década e preencheu um imenso vazio na vida cultural do país. O desaparecimento de Roberto Obregón pelo exército no início de 1971 pôs fim à atividade coletiva.

Dois livros, publicados no intervalo de dois anos, vieram mudar radicalmente o panorama da poesia guatemalteca; Poemas da esquerda erótica (1973), de Ana María Rodas, e Oh, banalidade (1975), de Enrique Noriega. O primeiro revolucionou o tema do amor na poesia centro-americana, com uma linguagem direta, desprovida de retórica. Foi um primeiro livro, mas escrito com surpreendente maturidade literária. Seu tema focalizava o relacionamento do casal por meio da intimidade erótica, antes sexual. Mas aqui, ao contrário do self masculino, ao qual estávamos acostumados, a voz que se expressa é uma voz feminina, um self raivoso que se recusa a se esconder atrás do lirismo decorativo e adocicado que até então caracterizava a poesia escrita por mulheres. A fúria nerudiana dos poemas carnais mais impetuosos da Residencia en la tierra aqui se despojou de imagens e floreios estilísticos, para assumir uma linguagem que impressionava na época por sua crueza até então inédita, e não apenas na poesia feminina.

O segundo desses dois livros, Oh, banalidade, de Noriega, destacou as contribuições de Rodas, aprofundando-se no aspecto confessional. A poesia guatemalteca, com exceção de alguns textos de Marco Antonio Flores e Manuel José Arce na década anterior, havia até então evitado assumir diretamente o tema autobiográfico. Noriega, a partir desse primeiro livro, fará do autobiográfico a força motriz de sua obra.

A poesia de Noriega, minimalista desde o seu início, é temporariamente atraída pela experimentação formal, associada a uma demanda artesanal extrema que vem, por um lado, de suas leituras de poetas de vanguarda norte-americanos, particularmente Ezra Pound e e. e. cummings; e, de outro, do contato pessoal com o poeta peruano Elqui Burgos, que Noriega conheceu durante uma viagem à capital mexicana em 1973. Burgos, por sua vez, o fará descobrir a obra dos poetas de sua geração, sobre todos os integrantes do grupo Zero Hora, do qual ele próprio faz parte. Esses jovens, fortemente influenciados pela Geração Beat e pela antipoesia de Nicanor Parra, tentaram incutir novos ares na literatura latino-americana, seguindo os slogans de Octavio Paz, que proclamava a reconciliação entre tradição e ruptura. Oh, banalidade é o primeiro fruto acabado desta confluência. Desde então, de um livro para o outro, a obra de Enrique Noriega não para de evoluir. Da implacável simplicidade dos poemas reunidos na seção “Minha família é muito bonita” de seu primeiro livro, cujo título falsamente otimista já é devastadoramente ambíguo, passando pelas evocações agridoces da infância provinciana em textos como “Guastatoya” , de El cuerpo que se cansa (1998), ou da coleção inusitada que compõe La saga de N (2006), extenso poema narrativo em código, onde não sabemos se o protagonista N (um emulador do imaginário kafkiano, uma espécie de alterego ambíguo irrisório com ares de Buster Keaton) zomba de si mesmo ou da ingênua expectativa do leitor, até a última coletânea de poemas, reunida sob um título paradoxal: Epopeia do lazer (2007), que se refere ao lazer produtivo, que não se trata apenas de uma forma irónica de homenagear a reflexão criativa, a imaginação e a sensibilidade não relaxadas deste autor, a tal ponto que se pode afirmar que, na atualidade, Enrique Noriega é o poeta mais versátil, complexo e universal com que conta a literatura guatemalteca. Sem dúvida, algum ou outro ego gigantesco de nossa província das Cartas protestará contra essa afirmação. Eu, de minha parte, simplesmente remeto o leitor à evidência: a obra do próprio poeta.

LUIS EDUARDO RIVERA
“Noriega y la renovación poética de los setenta”, Tierra Adentro, Guatemala, 2018.


IMOLAÇÃO ESPERMÁTICA

Trazidos por uma chuva
de lubrificantes salivas
caem peitos em minha boca e pernas
e bochechas e quadris e coxas
e vulvas e suaves mamilos e frases
ditas para a fome incontida
da carne
o lascivo Carregador
devasta mulheres em seu feudal
domínio de si mesmo
e depois
de tão abrupta suavidade
esse senhorio do pecado
que aclara e vivifica as ideias

Razões apenas para a isca
do sangue


TEXTO

A fantasia da criança remetida
A uma realidade é inesgotável
Como um ceticismo
Sou digamos um boneco (ou uma saúva)
Uma criança sabe falar com suas criaturas
Lhes dar de comer curá-las corrigi-las
Se necessário dar golpes de estado
Suspende garantias metralhando tudo de
Supersônicos com boca e índices
Ou simplesmente se aborrece
O cesto de brinquedos será suficiente
Meus bonecos sou eu mesmo
Posso também ser o cadáver de uma saúva
Carregada por outra saúva
Dá no mesmo a norte prevalece
Ela que desconhece tudo de si


MULHER NA JANELA

Apoia a cabeça nas mãos
Nas mãos apoia a cabeça
Apoia
Apoia os cotovelos
Na moldura da janela
Porém não é a cabeça o que pesa
Pesa o aborrecimento acumulado
Pesa o que não se vê
Pesa o que insiste
O que se dá discreto tangencial inabordável
O que ciente de não existir é buscado
Pesa
Pesam as coisas tontas após as que se foram
Pesa o saber-se alheio ao outro ao infinitamente outro
Pesa o assédio do outro o brilho opaco de uma garra
O pesadelo de um focinho
Pesa a fotografia de apoiar a cabeça nas mãos
Pesa como talco que não se mastiga o menor lampejo de nostalgia
Pesa o dente perfurado o membro amputado
Pesa a mão que copia de uma cópia a carícia
Pesa a carícia com a que alguém consola a si mesmo
Pesa a intenção da promessa com que alguém se inventa
E pesam
Infinitamente como pesas as sombras nos sonhos
Infinitamente como pesam o discreto o tangencial o inabordável
E pesam como eventos da pedra a miséria dos dias
O que esfaqueia e não sangra
O que a certeza mentirosa
Intensifica

Pesa pesam
Em cada rosto detido com as mãos
Em cada olhar por trás de um objeto algum
No que não foi cumprido
Com sua música de cuspida lambuzada
Com seu sorriso carniceiro mastigando pó no desprezo
E picam ah como picam
Desde o incompleto as mil maneiras do bocejo
Desde a promessa de antemão não cumprida
As incontáveis ânsias de outra vida

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