8 Poemas de ONDAKA 6.7 (Angola, 1994)

| |

Ondaka 6.7 (Osvaldo Boaventura Francisco), de Porto Amboim, Angola, nasceu aos 06 de Julho de 1994. Formado em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa pela Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto. Membro fundador do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, MNIA. Exerce as atividades de homem e de professor. Venceu o Prêmio Imprensa Nacional de Literatura 2023 e o Concurso de Contos Celebrando Talentos Literários 2024 da Grace Publisher.


DO AUTOCARRO A UM PASSO DO PARAÍSO

[povo de deujo] pim, pimpas
novo, tudo vai ficando
às ricas velhas de morte,
às brancas negras de sorte
sempre, tudo vai ficando
ó Danhele, e os leões?
[podero do sinhó] dez
[male não leva pro male]
a palavra
– Grandioso –, fez céu e pulga
um pregador roto de autocarro
que se esqueceu dele quente
paraíso rasgado de homem
[Sarva de parma pra zezus]
– o silêncio.


A VIA SACRA DA MANHÃ

um menino vazio de ontem
no quadro chão não acabado
no bocado despertar de hoje, um
zungar dos tambores ocos de sede em pessoa

[mó velho, faz sentir só uma de cem]
– Sem, sem, sem cem
às cores, beijando um sim a mendigar
nas lágrimas que ainda reclusam o avivar.


RECLUSO-ACÇÃO

recluso e esteganografias louvadas
a prisão (cágados lixados, afinal) de bagos,
preventiva intensamente cheirosa
dum ser culpado aberto de ninguém
que vive a inocência saudosa, inculpado,
das vítimas de palavras que escalam
– Não fui
eu
– Libera. Soltura
me libera. Na libera. Libera.
Ré (h)!
u.


UM DIA DESSES DE COR

Preto
Suja–
Preto–
Suja–
Preto–
Da via–
– Macaco
– Filho da p#ta!
Um dia desses de cor, né
Aberto às emoções sentadas de quadrados.


DIZUMBA, DIZUNGA

dá com uma palavra e meia do fim
– buja, mana, buja… está aqui o tomate!
es-táa-qui o- tomate
me paga no tomate
me pega na chucha

paternidade sorte milenar
a fuga dos tomates militares
e espinhas e pincéis sem meias patas.


EU, OS CINCO E UM FILHO NOVO DO VIZINHO

Quando eu nasci, minha mãe teve sete filhos:
eu, os cinco e um filho novo do vizinho
e a mãe ficou de pé no limite de espera:
descompensada

eu morri menino
eu morri de rebuçados envenenados do vizinho
e a mãe viveu nua na rua da vizinhança,
depois que abraçou adinamia e desesperança
e a mãe ficou de pé no limite de espera:

os cinco iam-se embora e vinham-se embora!
e a mãe ficou de pé no limite de espera:

um com impulsividade nos dias novos
dois com letargia nos dias cansados
e ainda duas desdobráveis mentes
que se insurgiram de entorpecentes

um filho novo do vizinho
sem apoio a realidade, conteúdo falso
a mente produz ideia
e a mãe ficou de pé no limite de espera:

o pai encontrou o suicídio nas panelas vazias,
que falavam misérias em alucinações frias
e a mãe ficou de pé no limite de espera:
descompensada.


A PROCISSÃO DOS TANTÃS

tam, tam-tam tantãs
rainha labirintada
no oco cio das cores
que fareja tom
fantasias de sopro
à sorte procissão
entretons banhados
no apito, um som quente

tam, tam-tam tantãs
o rei a chocalhar
à escuridão viciada
semba, toque morto
caia aos apalpos dos olhos
cegos de tantãs

tam, tam-tam tantãs
zelar melopeias
embebidos sonhos
ateados tambores,
procissão zabumbas
o carnaval lati,
caravana passa.


MILAGRES DO CHÃO

Mais terra nas nuvens,
ejaculação e
sabão
Deus-ontem não veio [se já não comemos]
me come então se– o fogão fechou
no hoje que se foi
no domingo à tarde

Deus no chão e em milagre
nos caixotes d’lixo
ainda flores adiadas,
bom sol na tempestade
na mão que lava uma outra
e sobra raiz.

1 comentário em “8 Poemas de ONDAKA 6.7 (Angola, 1994)”

Deixe um comentário para Yuri Cancelar resposta

error

Gostando da leitura? :) Compartilhe!