6 Poemas de José Ernesto(Porto Rico, 1981)

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Curadoria e tradução de Gladys Mendía

José Ernesto (Porto Rico, 1981). Poeta. Publicou os livros Bajo la sombra de las palabras (2011), Tatuajes del amor a la piel (2013), La brújula de los pájaros (2016), 1.9.2.3 (2019) e Rajuma, uma história Rohingya (2019). Participou de diversos festivais internacionais de poesia e Feiras do Livro, como: The Americas Poetry Festival of New York (2019), Festival Internacional de Poesía de Aguacatán, Guatemala (2019), Festival Internacional de Poesía de Los Confines (2022) e a Feira Internacional do Livro de Santo Domingo (2022). Atualmente trabalha no projeto Série poesia no carro (vídeo-leituras) e no livro Bitácora del nómada (Editorial Pulpo), entre outros projetos.


A CIDADE É UM POEMA I

Atrás das luzes da cidade
existe uma aflição que pesa
mais que as moedas do Vaticano
seus pecados e suas mentiras.
Atrás das luzes da cidade
há sombras e abismos, há chagas e dor.
Uma dor irreconhecível como uma vida rompida.
Ninguém vê atrás das luzes,
ninguém conhece o frio e a peste,
ninguém vê o desespero do homem e sua fome
nem o que esconde a cidade
sob o brilho cego de sua luz podre
porque é surda a queda da humanidade
e mudo seu estrondo.

Porque nos envenenamos de egoísmo e prazeres
e já não sabemos contemplar que
também há peitos vazios e estômagos ocos
vagando pela metrópole.
Que as ruas da cidade não são as únicas quebradas,
também há almas fragmentadas
que pedem uma esperança como quem pede perdão.
A cidade é um poema e uma Via-Crúcis
e seu lixo adorna a boca de alguém
enquanto aplaca sua triste fome.


A CIDADE É UM POEMA II

A cidade é um varal onde
foram penduradas as memórias
dos habitantes da vida
que por ela passaram.
Um varal longo como uma lágrima de luto
onde se deixam ao sol do tempo
as lembranças, a memória, aquela infância estagnada na cidade
que se faz poema em nós,
na cidade que se torna funil
na cidade que às vezes se desdobra
cidade-cemitério, cidade-sala de parto.
Tudo tem memória na cidade,
as ruas que nos levam por caminhos
de ida e volta cintilando reminiscências
que nos devolvem a outras épocas.
Algo assim como uma esquina que
guarda um beijo e um abraço,
uma esquina onde morreu o parceiro da escola
vivendo um filme estilo “Call of Duty”.
E eu sei que a vida tá difícil na rua,
mas agora é mais difícil para dona Maria
porque o “júnior” não estará mais em casa
e tudo ainda cheira a ele…

Nas ruas da cidade estão as vozes
dos que não saíram pra curtir na esquina
e as vozes dos que saíram
e hoje são ecos no ponto de ônibus
ou na quadra de basquete.
Esses amigos que tomaram a primeira curva
no jardim dos ossos.
Porque é foda ter 16 anos
e aprender que a morte não tem idade.
Passo pela cidade, sou mais um morador,
mais um amigo, mais um cara que aperta sua garota
e a cola nas costelas.
Sou outra rua, outra esquina,
outro varal encharcado de poemas e memórias.
Sou a cidade e a cidade é um poema em mim.


A CIDADE É UM POEMA III

Caminho pelas ruas da cidade
me encontro nos espelhos quebrados,
sou outro fragmento da cidade
que cai e se levanta, que se levanta e cai.
A cidade que é vitrine e teatro.
The City, como dizem os de Guaynabo
com seu flow de influencers
mas também com ruas rachadas
porque o buraco que cresce
no meio da estrada
nos atinge a todos — como também nos atinge
ter que viver na cidade da inércia,
a cidade à venda,
a cidade que querem comprar, mas
não se deixa vender.
Aqui estou querendo ser poeta
na cidade que é lixão
onde as ideias se perdem nas sarjetas
tomando banho com a água suja
que herdamos.

Aqui vivo…
Na cidade que é uma nave à deriva
para os cães abandonados
para os homens abandonados
para as avós abandonadas
para a infância abandonada
para a sociedade abandonada
pelos gestores da cidade-fantasma.
A cidade que tem um grito
em suas entranhas, que se afoga em silêncio.
A cidade que tosse, que seca o catarro
a cidade que está doente.
A cidade quer respirar, ser feliz,
mas está sufocada pela fumaça
que se acumula na Avenida Kennedy.
Mas aqui vivo,
entre as palavras e o lixo
da cidade que é um poema.


A CIDADE É UM POEMA IV

Durante a noite a cidade não dorme
porque a insônia que ronda os becos
rouba os sonhos como o governo
rouba o pão velho e mofado da mesa.
Transito a cidade e a toco, rachada,
sinto-a com medo, inquieta,
em estado de alerta.
Em suas noites hipsters a cidade chora
em marés de sangue, lamento
e raiva que transborda pelas ruas.
A cidade vive inquieta, em estado de alerta,
sinto-a rachada, toco-a com medo.
A cidade entra em pânico
e um ataque de ansiedade agônica explode
em seus postes, suas esquinas, suas ruas
e não há remédio que a acalme
e em seus olhos de concreto
vemos as olheiras longas e inchadas
que a insônia promete — e cumpre.
A cidade quer dormir
não quer pesadelos de pólvora.
A cidade quer sonhar alegre
como um recém-nascido.
A cidade não quer mais tapetes
de sangue para o cortejo fúnebre
de outro feminicídio na estatística.
Esta cidade, tua cidade, é
um poema selvagem, indomável
onde a paz é um animal
em perigo de extinção.


A CIDADE É UM POEMA V

Caminho pela cidade como
mais uma sacola de papel com a qual
o vento metropolitano brinca
e vejo uma mulher na janela.
A mulher olha a rua, a cidade que
se abre como um mapa para seus olhos marejados.
A mulher fuma, sorri com medo,
a mulher chora, a mulher toca com suas asas
a mancha escura que cresce no rosto…
a mulher canta o tango da morte:
“Não tenho amigos, não tenho amores, Não tenho pátria, nem religião, Só amargura tenho na alma Uma maldição meu coração.” [*]
Observo-a do meu privilégio,
dos favores que a cidade me concede
porque a cidade foi construída por homens
para homens que não choram
para homens que não sofrem
para homens que não sentem dor.
Olho para a janela e percebo uma mulher
que disfarça suas feridas com maquiagem.
Observo… vejo… contemplo
uma pomba saltar pela janela
porque às vezes a única liberdade é
voar ou morrer tentando.

[*] (Tango de la muerte, de Carlos Gardel)


A CIDADE É UM POEMA VI

Sentado no ponto
de um trem fantasma que parte
de lugar nenhum rumo a parte alguma
e percorre as artérias secas
de uma cidade enferma, uma cidade
esquelética.
Observo as pessoas caminharem imersas
num silêncio profundo.
Um silêncio de país desmontado
um silêncio de país sentenciado
um silêncio de país em coma.
Percebo que não têm olhos…
apenas buracos escuros,
longos como o túnel para o submundo.
Percebo que não têm bocas…
apenas um esgar de dor
parecendo um sorriso espectral
riscado, desbotado pelo tédio.
Acuso a ausência de ouvidos…
usam apenas fones podres
devorando seus tímpanos.
Então… toco meu rosto,
afundo os dedos nas raízes
da minha barba,
percebo o sorriso deslocado
as órbitas profundas dos olhos
e pus brotando das orelhas
causado pela voz de Pierluisi.
Ativo o modo avião
e o silêncio toma conta de mim
de uma cidade assolada por chuvas
de angústia coletiva.
De uma cidade que teve
o disjuntor apagado e foi deixada cega,
esvaída, esquelética, à própria sorte…
Levanto-me, recolho a pouca fé
a minúscula esperança
a diminuta ilusão de sobrevivência
e faço da cidade um poema
para sobreviver mais um dia
à desesperança em modo hardcore.

2 comentários em “6 Poemas de José Ernesto(Porto Rico, 1981)”

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