5 Poemas Odette Alonso (Cuba, 1964)

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Curadoria e tradução de Floriano Martins

Odette Alonso é poeta, narradora e gestora cultural. Nasceu em Santiago de Cuba e reside no México desde 1992. Seu caderno Últimos dias de un país recebeu o Prêmio Clemencia Isaura de Poesia 2019; com Old Music Island, ganhou o Prêmio Nacional de Poesia LGBTTTI Zacatecas 2017 e Insomnios en la noche del espejo recebeu o Prêmio Internacional de Poesia “Nicolás Guillén” em 1999. Compiladora da Antologia da poesia cubana do exílio (2011) e coeditora de Versas y diversas. Mostra de poesia lésbica mexicana contemporânea (2020). Autora de cerca de vinte livros de poesia; o mais recente é De humo y miel. 35 anos de poesia (2024).


O QUE TRANSCORRE

com Sigfredo Ariel

Quando, no canto do quarto alugado,
cantávamos canções de antigas lembranças,
com a língua presa pelo álcool e pela decepção,
nem imaginávamos o desfecho.
Dormíamos no calor do trópico,
sobre o pano branqueado por lentas fervuras
e um cheiro de cidade em decadência.
Renegando aqueles dias,
vimos a porta,
uma abertura de papel ou de mentira,
alguma maneira de fugir.
Não seria mais a fome ruminando nos portais,
nem a urina apodrecendo na pedra.
Para trás ficava o parque da coluna frígia
e aos pés uma serpente de fumaça
que os olhos contemplavam com espanto.
Assim mudou a luz que entrava pela fresta,
a qualidade do piso,
a espessura das paredes.
Mudou a melodia dos lábios e da orquestra,
o tempo com que a dança une corpo a corpo
e talvez a tontura,
a névoa dos olhos,
o veneno que morde o joelho.
Vejo os telhados desta outra janela
telhados adjacentes e corredores
que a fina garoa torna translúcidos.
Lá fora, os trens param
as pessoas transbordam nas calçadas
enchem os átrios
as praças
os cafés.
Passam banqueiros de colete e gravata
funcionários de escritório vestidos a rigor
mendigos de barba patriarcal.
Passam o vento e as nuvens da tarde
e o pó em redemoinhos gruda na memória.
Uma menina cantarola versos alheios
com um sotaque provinciano que já não existe.
Há tanta fúria em suas pupilas
tanta ausência de mar.
Turvas,
as horas acomodam-se no vapor,
povoam a ferrugem,
lustram as manchas que o esquecimento foi forjando
nessas risadas agudas,
juvenis,
que marcaram a estrutura destes dias,
o tempo interminável daquilo que passa.


MADRUGADA

Como uma sombra,
o silêncio bordou o vazio dos meus lábios.
Bicéfala, percorro as esquinas
passeio o coração de fumaça que ficou no meu peito.
Há um destino ancestral na canção que teco
como se em um segundo
o universo confluísse na minha pupila
ou no tremor do lábio que sussurra.
A fome faz piruetas
e a insônia
a chuva martela nos azulejos.
Ao pé da janela
a noite em dois fendida
fêmea sangrando sabor amargo
grito de cio desenhado em contraluz.
Vem clareando ao longe.
É um duelo de pânicos a noite.


ESPELHO

Você coloca o espelho diante dos olhos.
As palavras
que avançam sobre essa linha
nada dizem de sua consistência mole
nem de sua ambiguidade.
Toda palavra mente
arde
está contaminada.
De pouco adianta fugir dessa imagem
infinita
como cartão postal de aniversário.


FORMIGAS NA PAREDE

A guerra começou ali
atrás da cerca do quintal da avó
nas tardes ardentes do verão.
Misturávamos a comida
escassa
em mesas que não tinham serpentinas
em copos que depois nunca mais vimos.
Eram estranhas certas frutas nos trópicos
formigas na parede sim
e lagartos esverdeados
lançando-nos perguntas sem resposta.
Frágil como a lembrança
fumaça e poeira se confundem.
Em que esquina se escondem as dores
onde o medo.
Algo cruzou a mesa
uma mariposa talvez
um brilho
talvez a luz daquele verão.


SIMULACROS

por Luis Aguilar

Como chegar desta cidade àquela
cor cinza areia suja
como atravessar o mar
que é uma estria
no piso lustroso de um tugúrio.
Você não voltará para a mata
para o olho d’água
para o calor infernal em cada poro.
Passa pelo espelho uma silhueta
rosto sem rosto
corpo em fuga.

Para onde você ia nessas aldeias
o que você procurava lá
em caminhões abertos onde a chuva arrasa
vendaval de polpa seca e de meninos
esperança de outro pão e de outro leite bruto.
O que você procurava na sombra daquelas noites
e naquele quebrar das ondas
recife insondável
dentes de cachorro como vidros nos pés.

Eu sigo sua rota
a península dissolvida na pupila
a promessa de outra terra
igualmente inútil.
Só restam a costa e o manguezal
a língua enegrecida da lembrança.
Quanto você sabia
e quanto o esquecimento levará
quanto você calou por pudor
ou por preguiça
para não se mostrar fraco
simplesmente humano
com dores e tubos que perfuram seu corpo
com líquidos azuis que não serviram para nada.
Quem se lembra de você agora nessas ruas
que brigadeiro pronunciará seu nome
ereto solitário
um beija-flor voando em suas costas.
Que parque provincial
guardará em seus caminhos
a marca do abrupto
do passo clandestino.
Quem abrirá a porta após a notícia.

Não haverá mais montanhas
nem rios caudalosos
que brilhem com os sóis do pôr do sol.
A bala com o seu nome ficou presa no cano
a sombra tinge a água
e atrás do banco de nuvens
outra cidade suicida reaparece
soldadinhos de ar e vapor
e a última mensagem
sobre o espelho quebrado.

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