Curadoria e tradução de Floriano Martins
Ruth Ana López Calderón (Sucre, Bolívia, 1968). Poeta. Secretária executiva, começou a escrever no final de 2010. Autodidata, está listada no diretório REMES (Rede Mundial de Escritores em Espanhol). O seu trabalho está publicado na página web ARTE POÉTICA (Antologia da Poesia Universal) e tem publicados os seus textos em diversas revistas literárias online, como Letralia, Almiar, Proyecto Patrimonio, CineReverso, Gaceta Virtual, Morsadice, INVENTIVA Social, Revista Literaria Guatiní, Palabras Escritas Por Dentro, Avda. Los Escritores, Museu Posmoderno, Odiseo en el Erebo, Literatura del Mañana, Al borde de la palabra, Los Palabristas de Hoy y De Siempre, Comunidad de Escritores Papeles Olvidados, Revista Palabras Diversas, Eclipses Poética de Actualidad, Revista Review Bolivia e Revista Con voz propia. Seus poemas foram lidos em diversos programas de rádio em Buenos Aires, Argentina. Obras publicadas: Desde las profundidades (Black Diamond Editions, 2013, EEUU), Sin óbolos para Caronte (Editorial El País, 2014), Itinerario de una metamorfosis (MediaIsla, 2016), La niña que se diluyó en el tiempo (Pasanaku, 2025). Ela recebeu a primeira menção honrosa com a coletânea de poemas Sin óbolos para Caronte, no concurso literário nacional da Sociedade Dante Alighieri, em 2015.
A PENA
A pena negra em minha mão bate desesperadamente,
sua silhueta distante capturada pelo vento implacável:
Ela usurpa sonhos tardios e medos que habitam o horizonte
onde noites absortas em si mesmas examinam as profundezas da escuridão,
mastigando lentamente a inquietação de gemidos impuros,
com pele tão profana quanto um sepulcro, e ecos
vagam como fantasmas e relâmpagos
iluminando tempestades noturnas.
Não! Não há nada tangível na aurora desta paisagem de pranto,
suas asas eriçadas encobrem a esperança e fogem para as sombras.
A pena negra em minha mão lamenta como uma estaca
e como carne ela fragmenta e desfoca o mapa clandestino.
E o grito, sim! O grito de seu voo.
O desenho do labirinto escuro.
Oh! Retorno esperado e inesperado.
O corvo repousa suas garras em minha mão.
AMARGO
Um gole de mate amargo,
como silêncios, a madrugada percorre
solidões e nostalgias adornadas,
e as sombras das árvores
acariciam as grades da janela,
pupilas que fitam o horizonte.
Pensamentos inundam momentos confusos,
realidades crepitam, sombras se desfazem,
e sonhos seduzem os irracionais, e é preto,
e é branco,
e é cinza:
Não! Não! Não! É de cores deslumbrantes:
Olhos absortos e pele trêmula,
perturba, tensiona, como o voo truncado de um pássaro
à distância, e asas desesperadas rasgam o vento,
misturando lágrimas e orvalho,
beijando a moldura da janela,
e a ironia dança sorrindo em varandas antigas:
Outro gole de mate amargo,
e ressentimentos absorvidos e veias congeladas estilhaçam a pele.
A quietude envolve cada canto da paisagem,
rachada, inóspita,
espaços vazios clamam por presenças distantes.
O companheiro amargo,
não tão amargo quanto o momento de lucidez.
ATRÁS DA MÁSCARA
Aqui estou eu com a máscara cobrindo meu rosto
para não te assustar, para que não fujas
quão frágeis são as carnes dilaceradas,
como seda presa em espinhos brancos!
E teus fios trêmulos,
e a umidade em meus olhos, anseiam por tua imagem,
e eu me agarro para evitar cair no vazio, no abismo sombrio
que suga meu esqueleto até a última gota
e eu sinto frio
e desespero
e a solidão corrói meus pensamentos,
e tristeza, sim!, tristeza agarrada à minha respiração
turva o espelho onde vejo o espectro
pesadelos vêm à tona, tremores acariciam meus dedos
o vento vem brincar
com o fantasma do meu cabelo, pedaços da minha alma
voam esquizofrenicamente, voam e se contorcem: serpentes
intoxicadas pelo próprio veneno
onde estão as pontas soltas?
Um peito ofegante se contrai
e lágrimas banham o rosto
inundam os olhos que te procuram no firmamento fictício
uma voz sufocada clama de dentro
e mãos aladas cobrem a boca
— é a consciência emergindo de sua fissura e exasperada grita:
Sabes o que é ser mulher e não poder ser uma?
E a luta infernal começa
e a luta terrena não termina
Não reconheço o que o espelho mostra
aqueles olhos fundos, o semblante murcho,
a palidez da morte
e teu grito
e de repente meu coração salta, em outro corpo,
e eu te leio novamente, eu te sinto perto,
és o único que não foge aterrorizado,
o único que conhece a loucura centímetro por centímetro
a luz extinta de teus olhos olha para ti
e de teu coração brotam pétalas negras
enquanto a noite cobre a vida com seu manto
a sombra luminosa do abraço vem ao seu encontro
e eu permaneço ali, fundido com o eco silencioso de tuas palavras
com a canção de ninar muda de algo indefinível
que eu aguardo.
LIXO
Os passos desceram
até tocarem a base do trapézio invertido,
aquele repleto da lua das eras.
Os tempos em que subiam e desciam,
deixando sua pele em cada lugar,
aquilo que profana o túmulo dos sonhos e das revelações.
O andarilho adormecido irrompe no espaço,
sustentado apenas pelos gritos que silenciam as sombras:
Então saberás que chegou o momento
de arrancar tua alma com as unhas, tua carne com os dentes,
de transmutar o mistério da inconsciência
e tocar e apaziguar aquela fera cujos rosnados te fazem tremer.
Minhas pegadas são resquícios.
Para onde?
TALVEZ
Talvez o vago reflexo
da existência agarrando-se,
ao frágil fio da memória,
aquele que espreita para observar a vida pelas frestas,
aquele que flutua no crepúsculo da água
e corre triste e cinzento
pelas artérias esquecidas da cidade,
para a reciclagem.
Talvez apenas um fantasma que esqueceu a própria morte,
e agarrado aos restos mortais,
rasteja, geme e blasfema.
Ou pendurado no andaime do tempo,
batendo em portas, certamente o último.
Talvez apenas uma sombra
movendo-se pela estrada,
recusando-se a mergulhar na solidão,
alguém que nada é e aceita que os dias têm um fim.
Talvez aquele que escreve versos pressionando estes dedos, talvez.



