Tradução de Floriano Martins
Nelly Sanchez (França, 1974) é uma mulher encantadora, com suas mil faces de esplendor. Poeta, narradora, ensaísta, artista plástica. Sua poesia possui um humor que mescla a sábia inocência da infância com o mais intenso vislumbre crítico, um jogo surrealista de voracidade exaltada. Surpreende com seu “guarda-sol com o sol tremendo de flores” e as sombras dissipadas em meio à “beleza contagiosa do rumor”. Essa mesma vertigem delicada de maravilhas ela consegue no ambiente plástico de suas colagens. Nos poemas ela repassa as imagens com o mesmo clarão, percebendo as ondulações da realidade. Doutora em Literatura Francesa, Francófona e Comparada, especialista em literatura francesa feminina, particularmente nas obras de autoras da Belle Époque. Editora crítica de títulos como L’Ange et les pervers, de Lucie Delarue-Mardrus, Recueil de recettes des Belles Perdrix e coletâneas de obras epistolares. Nos últimos quinze anos, também trabalhou como artista de colagem e artista visual. Artista autodidata, suas obras são uma extensão de sua pesquisa acadêmica, questionando estereótipos de gênero, particularmente aqueles relacionados à feminilidade, revelando um universo feminino, surreal, estranho e, por vezes, bem-humorado. Assim como Frida Kahlo e Leonora Carrington, Nelly Sanchez brinca com os símbolos da representação feminina, utilizando imagens recortadas de revistas de moda feminina. Estes poemas, traduzidos por Floriano Martins, integram um álbum musical que estão preparando, o brasileiro e a francesa. Os dois também vêm escrevendo um romance a quatro mãos.
POEMAS RECORTADOS
22.
Nesta margem
Inventei mil vezes
Minha vida
Cujo humor
Em ondas contínuas
Me escapa
116.
Nos interstícios
Das horas em repouso
O pensamento se insinua,
Penetra
O pálido silêncio das mágoas
Estende-se,
Entre a graça curvada e a inveja.
119.
A cada dia
Uma esplêndida louca desperta
Num clarão de mil risos
Mais brilhante que um sonho nu
E
Recai furiosamente
Aos pés de uma primavera ideal
De pálpebras e escamas de ouro.
123.
As sombras se dissipam
Com um ricochete virtuoso
Na incrível tinta da memória
Sua superfície oscila
Entre a nuance insolente
E a beleza contagiosa do rumor.
124.
O início:
Uma oscilação quente e precisa
Com a lentidão refinada de uma serpente de pedra
Uma corda esticada serpenteia pelo centro do silêncio
Uma dor negra foi costurada à boca do nada.
127.
De repente, enlouquece
O coração se descontrola,
Enche sua bolsa com cabelos adornados de romance,
Seu sapato barulhento com nuvens brancas,
E seu guarda-sol com o sol tremendo de flores.



