Com curadoria e tradução de Floriano Martins
Luz Helena Cordero Villamizar (Colômbia, 1961). Nascida em Bucaramanga, é poeta, escritora de ficção, cronista e ensaísta. Sua obra recebeu reconhecimento nacional e internacional e foi incluída em diversas antologias. Seus poemas foram parcialmente traduzidos para inglês, português, italiano e chinês. Livros publicados: The Temple Is in My Eyes (poesia), 2025; Nowhere Is Also a Place (crônicas), 2024; We Still Have Insolence (contos), 2022; A Few Tender Imprecisions (crônicas), 2022; Broadsheets (poesia, ensaio e crônica), 2019; Echo of Shadows (poesia), 2018; Postcard of Memory (antologia pessoal), 2010; By the Art of Words (poesia), 2009; Absent Sky (poesia), 2001; A Ponte Está Quebrada (contos), 1998. Canção para Matar o Medo (contos), 1997; Ouça-me com Seus Olhos (poesia), 1996. Entre suas antologias mais recentes estão: O Que as Palavras Não Podem Envolver: Poesia Escrita por Mulheres Colômbia/Brasil, 1964-2016 (2024), Morrer é um País que Você Amou (2024), Nesta Parte do Mundo: Uma Antologia de Poemas sobre Bogotá (2023), Murmúrio de Folhas: Poesia Reunida. 40 Poetas Colombianos (2023), Respirando o Verão: Uma Antologia de Poetas Colombianos (2022), Olhos Bem Abertos: Uma Antologia de Poetas Hispânicas (2021), A Canção do Condor: Uma Antologia de Poesia Colombiana Contemporânea (2021), Venho Oferecer Meu Poema: Uma Antologia de Resistência (2021). Grande parte de sua obra publicada pode ser lida em seu site oficial: https://porartedepalabras.com/
A AGULHA
Quando ele foi libertado,
O tenente escondeu-o entre as botas.
os bordados que ela havia feito
por cinco mil cento e quarenta e um dias
com esses fios rasgados com cuidado
para peças de roupa inúteis onde as cores dormiam.
A agulha invencível foi, veio, perfurou a noite.
e penetrou silenciosamente em cada lacuna da memória.
A glória penetrante de seu brilho,
sua caligrafia tensa,
se a artimanha de bordar pensamentos for possível.
A angústia de ser um fio prestes a se romper.
O tenente perdeu a voz, com os olhos fixos no chão.
Era um sapo, uma anta, uma centopeia, uma cabana, uma corrente.
Somente a agulha compunha as palavras,
Ele teceu o tempo vencido, o remoto, o sonho,
Apenas a agulha como única mestra de suas mãos.
Ali, entre suas botas, agora livre.
— Ele pensou, mas não disse nada.
Mantive o medo de perder uma agulha.
Como dizer isso, como gritar isso,
Sua arma mais nobre em batalha.
PROJETO PARA UM LIVRO DE POESIA
Deve ser tão vasto quanto o amor.
Deve ter os lençóis salgados.
Devorá-lo em uma só mordida.
Tem que ser ao mesmo tempo sutil e ofensivo,
amplo e cheio de substância.
Deveria ser vendido nas ruas
como doces ou água
para que possa ser transportado em mochilas escolares
e dar um passeio com os cachorros.
Ele deve ter olhos para cegos
e espinhos nas folhas
Deve ser reciclado em aterros sanitários
e ficar preso nos esgotos.
Imagino um livro como uma vela em um sabá de bruxas,
transformado em música ou insulto,
coelho com o casaco de feiticeiro
impertinente e repentino
voando por salas estreitas
rindo dos livros que mentem
nas prateleiras do tédio.
Um livro que suplanta Deus
em seus sete dias de gênese.
Que outra ilusão pode servir as palavras?
UM GATO SEGUE O OUTRO, E A MEMÓRIA SE ESTENDE.
e fica presa no algodão das suas patas,
nos ossos elásticos da manipulação tibial,
naquele ronronar que desce pelo pescoço
perfurar as vísceras e o pensamento.
Não há sombras nem cantos escondidos.
onde esses seres não passaram a noite
de ar e cabelos brilhantes.
Seus olhos de vidro impossíveis
Eles examinaram minuciosamente a vergonha e o riso.
Todo medo foi medido por suas caudas.
num vai e vem entre fazer e não fazer
e quando eles se atropelarem no telhado
É como se eles estivessem fugindo de alguma coisa.
que se manifesta na nossa respiração.
Lucero Tobita
Archi Mono
Princesa da Neve …
Não são nomes de gatos.
São essa forma de combinar lâmina e carícia,
silêncio e orfandade, namoro e fuga.
Eles continuam procurando comida entre as ruínas,
urinar nos móveis, nas camas,
o rosto da Virgem, a cozinha.
Eles ofendem com seus cheiros.
Eles exigem sua ração matinal
e eles são a nossa desculpa.
Continuar a busca nos cantos.
Eles nos ocupam, eles nos perturbam,
estão a agravar ainda mais a situação.
Eles nos resgatam e não nos deixam cair
quando estamos prestes a afundar
com um miado profundo.
INQUISIÇÃO
A fogueira estendeu seus tentáculos
quebrando a madeira vermelha,
fazendo um nó de braços
sob os imensos olhos do absurdo.
Isso fez com que os seios dela explodissem
em uma chuva de sementes brancas,
devorou as coxas largas do prazer
e cresceu ardendo de desejo.
Então, as cinzas se transformaram em uma catedral.
Algumas mulheres testemunharam tudo
e com terror odiavam o seu corpo,
Outros o ofereceram como sacrifício.
Mas nós, bruxas, decidimos consagrá-lo ao amor
como uma afronta aos assassinos.
SAMUEL
Suas mãos estavam cobertas de marcas, tingidas pelo tempo.
Mãos perfeitas para acariciar pombos e ajeitar o chapéu.
Tudo em sua pele era um mapa de acontecimentos.
Alto e magro, ele tinha a curvatura exata nas costas
para acomodar o saco, a casa.
E a memória, precisamente aquilo que mais lhe pesava.
Samuel cheirava a lenha, ao campo.
Suas alpargatas falavam de caminhos, de dificuldades.
Ele era uma criança tímida, com enormes olhos de terror.
Sem nenhum outro motivo para crescer,
Ele foi forçado a se adequar à sua estatura.
Para além da fumaça, para além do facão
da história que ele devorou sem dentes,
De seus lábios saíam versos, refrões inocentes.
Ele nunca proferiu uma queixa, exceto em pesadelos
em que a mãe, o fogo, o terror retornaram.
Samuel veio morar em nossa casa.
E com ela vieram a terra, a coalhada,
A história de um país desconhecido.
Era um enigma vagando entre as carroças.
tão deslocado quanto um cisne na avenida,
Herói e vítima da adversidade.
A história não se preocupa com pessoas tão fundamentalistas.
Sem eles, não é possível resolver as pendências.
para moderar as cordas vocais.
Ele nunca aprendeu a escrever uma carta.
Mas hoje essas palavras habitam dentro dele.
SER PEDRA
Eu sou uma pedra.
Em pedra eu me conjugo, eu me banho ao sol, eu me habito, eu me esmago,
Eu desabo, me desfaço, me entrego completamente, fico angustiado.
Eu sou aquele que não teme o relâmpago, a faca, o grito.
A negação do vento e seus cavalos,
a inveja da folha,
a tentação da água, seu brinquedo.
O exemplo que ofende,
fria certeza,
o corpo onde a morte falha.
Eu sou a casa que sobrevive a você,
a lama em que você pisou,
o pesadelo e sua memória,
o rio parou,
a hora que você está atravessando, com medo,
Aquilo que você silencia e aquilo que pesa no seu estômago,
o ponto de ruptura da flor,
a canção silenciosa da terra,
O enigma, a ruína, a ameaça.
Eu sou a forma que ofende o círculo,
a agonia da fila,
a borda que dói e aumenta de dor,
o pedante, aquele que vence as garras da besta,
A incorruptível, aquela que usa seu coração de gesso.
Por quem os enlutados e suas sombras clamam.
Não almejo ser uma pedra.
E eu sou pedra por todos os lados.
Só a beleza me destrói.



