3 Poetas e um Fio de Corte – Poemas de Angela Brandão, Ilana Eleá e Lucelena Ferreira

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“Fio de corte” é um livro feito a seis mãos por Angela Brandão, Ilana Eleá e Lucelena Ferreira. As autoras, que moram no Chile, Suécia e Brasil, respectivamente, desenvolveram esse projeto à distancia no período da pandemia. O livro está sendo lançado pela editora 7Letras e segue uma amostra de seis poemas, dois de cada autora.


Angela Brandão é jornalista, doutora em Comunicação pela PUC-Chile, escritora, compositora de MPB e tradutora. Em 2008, lançou o primeiro disco autoral, hoje disponível nas plataformas digitais. Em 2014, ganhou o prêmio de melhor canção no Festival de Música da Rádio Nacional de Brasília, onde morou. Em 2015, publicou o primeiro livro, “Quarentena amorosa”, sobre separações, lançado no Brasil e no Chile, chegando à lista dos mais vendidos por lá. Tem dois filhos e mora no Chile, onde trabalha como tradutora.

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Substantiva

Para Mar Becker

Faz 26 dias que sangro.
O médico, ele
que não tem útero,
tenta me explicar que está tudo bem.
É só meu endométrio
desmoronando aos poucos,
porque este mês não ovulei,
coisas da idade, ele diz,
corpos maduros reagem assim ao stress.

Penso que não devo ser lá tão madura,
maturidade engendra sabedoria,
e sequer pleiteei do plano de saúde
uma médica, substantivo feminino.

Ele pergunta se já conheço o desconforto
dos suores exagerados.
Cogito responder que exagero é minha especialidade,
e a prova é que sangro há 26 dias,
mas não é hora de confundir a cabeça de um homem,
pra tudo na vida há momento,
e apenas respondo não,
esse exagero ainda desconheço.

Saio do consultório com prescrições,
ferro e pastilhas,
atordoada em ressaca.

Rastreio na arte um arrimo.
Música, poema, bandeira que seja.
Bandeira, substantivo masculino,
quem sabe ele,
mas não,
não há espaço para tangos argentinos,
ainda há muito o que fazer, afinal.
Buscar as crianças no colégio, por exemplo.

Olho para o relógio,
âncora à mão.
E, do nada,
como se acaso,
penso em mar.
Mar, substantivo próprio. Feminino.

Desfruto a poesia das imagens
aboiando na beira da memória.
Desafogo.
E de sentir a água salgada no rosto,
sei que mergulhei.

Tem coisas que só um útero pode dizer.
Útero, substantivo próprio.
Faz 23 dias que sangro, mas só agora,
enquanto ondeia nos olhos esta segunda goteira,
ouço finalmente seu recado.


Sommelier

Para Jaime.

Só quem sabe degustar silêncios
é capaz de compreender a vida a dois.

Há silêncios harmônicos,
e silêncios dissonantes.
Há silêncios ácidos,
e silêncios adocicados.
Há silêncios graves
e os que são estridentes
a ponto de ensurdecer.

Há silêncios densos,
encorpados e foscos,
como vinho tinto.
E há os que são leves,
translúcidos, cheios de ar.
Outro entorpecer.

Há silêncios quentes,
em que a gente se despe por instinto.
E há os gélidos,
dos quais é preciso se proteger
porque fazem doer os ossos.

Há silêncios de espada,
e silêncios de escudo,
trombetas surdas
do passado e do futuro.

E há, por fim, os silêncios maturados,
envelhecidos em convívio,
decantados de sentido.
Os silêncios que dizem quase nada,
– o que, posto em espelho, significa muito –
e assim enfeitam a solidão
nos dias em que está mais bonita.

São os silêncios mais caros,
apenas privilegiados o conhecem.
São os silêncios mais raros,
porque só o amor em paz
pode oferecer


Ilana Eleá é autora de “Encontros de neve e sol”, “Poemas acesos” (publicação bilíngue português italiano) e “Emma e o sexo”, primeiro volume de uma trilogia erótica publicado pela e-galáxia e em audiolivro pela Pop Stories. É doutora em Educação pela PUC-Rio e mora na Suécia desde 2011, onde estuda Sexologia. Membro do Mulherio das Letras na Europa, está presente em antologias poéticas do movimento. Ganhou prêmio local pela biblioteca infantil que abriu no jardim de casa, em Estocolmo, a Bibliotek Barnstugan.

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O parto

Eu tinha medo de parto
porque diziam que a dor
seria avassaladora:
                             melhor passar o bisturi
                             sedar os nervos

E ainda bem desaprendi
esses temores

As contrações que florescem a vida
não ecoam gritos de tormenta vazios

Pela tocha passada por Ilítia,
as flechas são aliviadas
e marcam o nosso próprio episódio mítico
até à coragem indescritível da luz.


Fetiche

No sombrio do quarto
os olhos fluorescentes vidrados
escutam o meu
consentimento:
“Pulso doce, domínio é bom e te empresto”.

Vem e me universa
inventando cenas inimagináveis ao pé do ouvido

Obedecer ao desejo
é como vendar a hipnose delicadamente,
segurar firme os seus braços,
e ao tato íntimo da sua mente úmida,
tremer vertiginosa
como planície fluvial de mim.


Lucelena Ferreira é escritora, professora e pesquisadora. É doutora em Letras e em Educação pela PUC-Rio e pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris. Foi pesquisadora da Cátedra Unesco de Leitura PUC-Rio. É autora premiada pela Fundação do Livro Infantil e Juvenil, com “Por que ler?”. O primeiro título de poesia, “Inquietudes”, foi bem recebido por nomes como Adélia Prado. Em 2019, publicou “Mulheres na liderança”, já na segunda edição. Ainda este ano, lançará o infantil “Bela e o balé”. 

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Matriarcas

As avós áridas, com suas caras de chão.
Minhas desavós e o afeto
raspa de prato,
sem abraço ou palavra.
Foi o que puderam, no feminino deserto.
De tempos em tempos, mandavam-me
potes gordinhos de goiabada,
meu doce preferido.
As avós surdas, com suas dicas de submissão e
estupro marital:
amassados mapas de proteção.
Mantiveram-se lúcidas até o fim, em pleno labirinto.

Da bisavó materna, lembro uma única cena:
não há rosto, mas
longuíssimos e brancos cabelos,
penteados à exaustão.
Eram cordas de amor-próprio,
cultivadas sem pressa nem alarde.
A muda resistência.
Foi uma anti-Maria, a bisavó Marieta.
É ela, a matriarca que crispa no meu nevoeiro
esfogueada em si mesma,
com seus cabelos imortais.


Longe

O seu cheiro me espaça. Fico desdobrável no infinito. Todo
esse vento vira sussurro seu. Em fluidez frágil de acrobata,
salto sina e senão. Caio ou não caio? O momento é de assovio.
Desmereço a liberdade das palavras porque meu pensamento
está sólido. Seu cheiro é corpóreo. Seu cheiro de árvore.

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