Curadoria e tradução de Floriano Martins
Margarita Drago (Rosário, Argentina, 1946). Reside em Nova Iorque desde que saiu da prisão, onde leciona Língua e Literatura Hispano-Americana no York College (CUNY). Como ex-prisioneira política e escritora, participou de congressos, colóquios, feiras de livros e festivais de poesia nos Estados Unidos, Argentina, Peru, Brasil, México, Honduras, El Salvador, Guatemala, República Dominicana, Porto Rico, Cuba, Canadá, Espanha, França, Inglaterra e Romênia. É autora de Fragmentos de la memoria: Recuerdos de una experiencia carcelaria (1975-1980) (Editorial Campana, 2007) — declarado de interesse cultural pela Câmara dos Deputados da Nação Argentina — e da edição ampliada do mesmo, Fragmentos de la memoria. Minha vida em duas batalhas (Editorial Dunken, 2022); da edição italiana Frammenti della memoria. La mia vita in due battaglie (Officine Pindariche Editore, 2023); dos livros de poesia: Con la memoria al ras de la garganta (Editora Campana, 2013), Quedó la puerta abierta (Projeto Editorial La Chifurnia, 2016), Hijas de los vuelos (Editora El Mono Armado, 2016), Un gato de ojos grandes me mira fijamente (miCieloediciones, 2017), Heme aquí (Projeto Editorial La Chifurnia, 2017), Con la memoria al ras de la garganta/Con la memoria stretta in gola (Associazione Culturale Agape, 2018 e Officine Editore, 2022), Sé vuelo (Projeto Editorial La Chifurnia, 2018); Um corpo que ainda palpita (Editorial Novel Arte, 2023); Palavra ardente (El Ángel Editor, 2023); do estudo acadêmico Sor María de Jesús Tomelín (1579-1637), concepcionista de Puebla: A construção fracassada de uma santa (Editorial Pliegos, 2019); Nós em liberdade (Editorial Caravana, 2022). É coautora de Tomamos la palabra: mulheres na guerra civil de El Salvador (1980-1992), (UCA Editores, 2016). É subdiretora da revista semestral de literatura EntreTemas Revista Digital e curadora, juntamente com Juana M. Ramos, de Palabra-Imagen-Escena, um espaço artístico criado para a divulgação das criações de poetas, narradoras, dramaturgas e artistas visuais que produzem suas obras em espanhol em Nova York. Seus poemas, contos e ensaios foram publicados em antologias e publicações impressas e digitais nos Estados Unidos, América Latina, Espanha e Itália.
OFÍCIO SAGRADO
A este ofício me obrigam as dores alheias,
as lágrimas, os lenços acenando,
as promessas em meio ao outono ou ao fogo,
os beijos do encontro, os beijos da despedida,
tudo me obriga a trabalhar com a palavra, com o sangue.
JUAN GELMAN
Por este ofício sagrado
de oleira e escrevente
das deusas,
mergulho a cabeça e o coração
na pedra vulcânica,
chego às profundezas
onde a lava borbulha,
extraio palavras
feitas de cinza e pó,
palavras que habitaram
corpos embriagados de sonhos,
hoje, corpos quebrados e dispersos.
Por este ofício sagrado
recolho fragmentos
no ventre da terra
enterrados,
costuro letras,
amasso o barro,
palavra por palavra
monto a história,
dou vida à morte
e Vida à vida.
GUARDIÃO DA MEMÓRIA
Amo este corpo que por muito tempo
habitou as sombras
que conheceu rigores
abandono solidão esquecimento
amo este corpo
tantas vezes cobiçado pela morte
tantas vezes açoitado
por ventos de latitudes distantes
amo este corpo
tesouro oculto
guardião da memória dos tempos.
POÉTICA
Rasgar a folha até sangrar
com a palavra pontiaguda e penetrante
chegar ao coração do nome da coisa
até que o nome e o nomeado sejam
imagem transparente no poema.
A DISTRIBUIÇÃO DA SOPA
Mamãe mergulha a concha
na panela de ensopado recém-cozido
e em silêncio
distribui porções em cada prato
— a do papai é a mais abundante —
meu irmão e eu entendemos
a diferença
com a cabeça baixa, mamãe serve
com cuidado
para não derramar o líquido
na toalha limpa e recém-estendida
enquanto mamãe distribui a sopa
em nossos pratos
ela espalha ternura
com seu gesto e seu olhar.
Em outro tempo e outro espaço
a vigia mergulha a concha
em uma grande panela de sopa
de poucos nutrientes
e divide porções minúsculas
nos pratos de latão
que cada uma lhe estende
enquanto a carcereira
distribui o caldo gorduroso
em nossos pratos
espalhando ódio
com seus gestos, seu olhar
e com o líquido que lentamente
vai derramando.
AVÓ
A avó não frequentou a escola,
assinava com o polegar,
não sabia ler,
mas sabia decifrar o crepitar
das folhas de outono rodopiando ao vento,
conhecia a linguagem da chuva nos telhados,
traduzia o canto do pássaro na árvore,
sabia o momento exato das cenouras
que, escondidas na terra, lutavam para chegar
à minha boca de menina mimada,
falava com as plantas, hortaliças e flores,
sabia o momento certo da semeadura,
do transplante, dos frutos, da colheita.
O DIA EM QUE VIOLENTARAM OS NOSSOS SONHOS…
os relógios pararam
o tempo silenciou
a sala ficou vazia
os assentos vazios
o quadro negro mudo
as paredes silenciosas
as vozes e as risadas
congeladas no ar
como um eco distante
o “bom dia”
e o “até amanhã”
a porta ficou aberta
para as sombras e o medo.
ELES FORAM LEVADOS
Por que derramar mais tristeza
nos corações dos tristes?
RUMI
Ficaram os abraços
presos no ar
a mesa servida
e o pão quente no forno
ficou o grito mordendo
as sombras
e as mãos de todos arranhando
a noite
“eles foram levados” “eles foram levados”
ecoando nas paredes
das casas vazias
“eles foram levados” “eles foram levados”
sussurra o ar
pelas ruas desertas
onde o infame
jogou seus corpos
onde a terra
esconde seus olhares
onde as bocas
sangram palavras
onde os ossos
tremem de frio
“eles os levaram” “eles os levaram”
clamam mães angustiadas
em uma busca sem trégua.
o silêncio se prolongou
ao anoitecer da espera.
MULHER PÁSSARO
Uma mulher, pássaro de asas quebradas,
foi expulsa do paraíso
e condenada a viver no exílio
em uma cidade ostentosa
de luzes, prédios e miséria,
onde meio que criou raízes
metade de sua vida,
e onde, junto com outras,
pássaros exilados como ela,
teceu sonhos e memórias
e recompor com força de
palavra e caneta
as asas de seu corpo maltratado.
A mulher sobrevoou os mares
e pousou nas margens da terra prometida.
AQUI ESTOU
Meu lado direito está cansado
busca a terra
abandonou meu lado esquerdo
que acusa vocação para as alturas
e eu aqui no meio dos dois
buscando o equilíbrio.
MESMO QUE MAIS DE TRÊS VEZES VOCÊ ME NEGASSE
mesmo que mais de três vezes
você me negasse
mesmo que renegasse sua história
a minha
a nossa
a de todas
mesmo que tenha enterrado meu nome
onde esconde seus mistérios insondáveis
embora tenhas apagado de tuas mãos
as marcas do inferno e do delírio
embora tenhas esquecido
tuas promessas carregadas de futuro
embora tenhas queimado as bandeiras
da luta cotidiana
nas cinzas do esquecimento
eu continuarei pronunciando teu nome.
AS ARMAS DO AMOR
Forte como a morte
é o amor
dizem os Cânticos
o amor venceu o ódio
e a inveja
bastou uma estocada certeira
uma carícia desarmou uma centena
de olhos à espreita
prontos para desatar dois corpos
entrelaçados em abraço
frágeis, paralisados de medo
um beijo clandestino
roubado da noite
derrotou o dedo inquisidor
e a metralha
Forte como a morte
é o amor
insistem os Cânticos.



