3 Poemas de Manuel Mora Serrano (República Dominicana, 1933-2023)

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Curadoria e tradução de Floriano Martins

Manuel Mora Serrano (República Dominicana, 1933-2023). Imenso colaborador da Agulha Revista de Cultura, sem o qual não teríamos abertas as portas da tradição lírica e do ensaísmo em seu país.  A maior parte da sua vida foi dedicada à literatura, à pesquisa literária e à publicação de artigos de jornal sob o nome “Revelações” até receber em 2021 a mais alta distinção concedida a um escritor dominicano. Mora Serrano, natural de Pimentel, foi um grande defensor da literatura provinciana, e da Província Duarte mobilizou e conectou escritores e poetas com os mais premiados da Capital. Em 2013 recebeu o prêmio Caonabo de Oro, o segundo grande prêmio, antes do Prêmio Nacional, e depois do extinto Prêmio Siboney por seu romance Goeiza. Narrador, poeta, pesquisador incansável, Mora Serrano publicou seus ensaios sobre o modernismo na América Latina, sobre o Postumismo e sobre Domingo Moreno Jimenes, seu grande professor, seu amigo, cuja obra reivindicou ao longo de seus dias. É autor de La Luisa, El Ángel Plácido, Decir Samán, Juego de Domino; de poemas como Sinfonía en Miedo Mayor e Sinfonía en la Primavera, bem como a antologia Sempre haverá poesia romântica e Modernismo e Crioulismo em Santo Domingo, entre outros. Mora Serrano disse modestamente sobre si mesmo: “Vivo frustrado com as minhas obras porque estão cheias de defeitos literários. Não me considero grande coisa e como leitor exigente sinto pena do meu próprio trabalho e por isso não o faço. Não me considero candidato a nenhum prêmio. Nunca estou satisfeito com o que faço porque me considero um aprendiz, desculpe por desperdiçar seu tempo, nem eu nem o anjo merecemos tanto.” Apesar dessa forma de pensar, Manolito foi merecedor do importante Prêmio Nacional de Literatura 2021.


DESTINOS SUCULENTOS

Se agora em tu maturidade queres te sentir uma menina outra vez.
Se queres que tua carne fique jovem e macia novamente,
fecha os olhos e deixa-me beijar-te,
fecha os olhos e deixa-me esfregar
teus suculentos destinos com minhas mãos.
Se queres voltar à tua linda adolescência
e deixar novas melodias cantarem em tua pele,
deixa-me acariciá-la lentamente,
deixa o fervor quente entrar em ti
como se minha fome entrasse no pão quente.
Se queres ser mais jovem e mais bonita do que eras
quando nenhum de nós se conhecia,
Se queres ser a donzela inefável que foste,
Bastaria dizer: Abraça-me amor
e milagrosamente eles cheirariam
os cantos escuros da tua carne
onde os soluços crescem.
Porque se realmente queres essas coisas,
Se estiveres decididamente disposta a fazê-lo,
Se anseias por esses milagres prodigiosos,
fecha os olhos e deixa-me beijar-te,
fecha os olhos e deixa-me esfregar
teus suculentos destinos com estas mãos.


[NUNCA TE VI NUA]

Eu nunca te vi nua.
Não sei se tens cicatrizes, pintas, desejos de tua mãe,
sinais de família.
Ignoro o sinal do teu umbigo,
inicial da tua parteira
ou talvez tua barriga
tenha cicatrizes, caminhos ou distâncias
que descem ao mundo
para beber no poço da vida.


A SOLIDÃO DE QUEM AMA

A solidão de quem ama o que não deveria ser.
Daqueles que amam a sua solidão, mas desejam vê-la partilhada,
É a solidão mais verdadeira e absoluta.

Se bastasse pronunciar um nome para materializar um beijo,
Se bastasse imaginar o que aconteceu para que isso novamente se desse,
Quão bela e desejável, quão plena e retumbante seria minha solidão!

Em vão estendo as mãos para aprisionar a sombra imaginada.
Em vão me viro na cama fria procurando
a marca do teu corpo,
Só a noite e a chuva vagam pela minha solidão.

Eu giro naquele carrossel sombrio até ficar totalmente cansado
e eu sinto que estás saindo nas sombras absolutas
quando ele retorna, e a verdadeira solidão me envolve e me oprime.

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