Curadoria e Tradução de Floriano Martins
Valentina Rojas (Antioquia, 1998). Poeta, professora, oficineira e promotora cultural. Ela vê as palavras como pontes, tecidas entre o florescimento da existência e a contemplação do mundo, o poema como um rastro. É colaboradora de diversos meios literários digitais do país, participante do Coletivo Artístico e Cultural da revista Innombrable e membro da comissão organizadora do “Encontro de Poetas Mexicanos em Diálogo com Poetas do Mundo, Cuernavaca Poesía”. É autora do livro bilíngue La desnudez de la sombra (2023). Seus textos podem ser encontrados em diversas antologias, revistas e páginas web. Participou de diversos simpósios, encontros e festivais locais, nacionais e internacionais em países como Peru, Argentina, México e Cuba. Foi pré-júri do Prêmio Nacional Infantil R. H. Moreno Duran, Sub-35, e do Prêmio Yolanda Reyes de Livros de Contos. Também integrou o júri do Concurso Literatura Pa’chuparse las Letras, da Universidade Pedagógica e Tecnológica da Colômbia. Seus poemas foram adaptados para formatos audiovisuais, artísticos e de colagem, e também foram traduzidos para o inglês, italiano e árabe.
*****
Chamamos Valentina de nossa Valquíria, com seu rosto branco e cabelos levemente ruivos. Ela é, de fato, uma verdadeira lenda. Ela superou bravamente adversidades como intervenções cirúrgicas no crânio. Dedicou-se ao ensino, ao ensino superior e à escrita, participando regularmente de concursos de poesia, tanto em Medellín quanto em toda a Colômbia e no exterior. Valentina pertence a uma nova geração de poetas que está construindo gradualmente seu legado. Valentina sabe que estamos em tempos difíceis, como quando escreve: A ternura se transformou em pedra pelas costas de Deus. Em tempos de holocaustos e perseguições, Pássaros sitiados não encontram mais ninho. Em tempos difíceis, O ferro revive como um pai ausente.
Valentina é uma voz que se ergue e nos comove. Os seguintes poemas são apresentados com ela em colaboração para esta edição.
FERNANDO CUARTAS ACOSTA
FRAGMENTOS DO CREPÚSCULO
Onde a pedra guarda
a nudez da carne
enquanto águas ancestrais
repousam nas margens do inverno
a noite cai
entre o barro
e a febre ataca;
o tambor nas sombras
é o gatilho que gira
seu sopro na rocha.
O caminho não é estrangeiro,
nem há lágrimas escondidas.
Assim dormimos.
Dormimos, sim,
atrás dos olhos
de outros olhos
que nunca
se abrirão novamente.
HORIZONTE
Às vezes,
gostaria de tecer uma ponte,
olhar de alto para o reflexo:
um desejo desfolhado,
de herdar dos pássaros
o seu movimento…
Suspender-me
na vertigem.
E se, por um instante,
eu fosse um pássaro:
me tornaria o céu,
um refúgio
do eco das penas.
Eu capturaria,
em um canto chuvoso,
todo o murmúrio
que repousa na sombra.
RITUAL
A menina cruza o corrimão
como se o ferro fosse seda,
fio esticado ao amanhecer
Sob ela, a terra
onde dorme a fome que outorga a queda.
Não há jogo,
há ritual
O ferro a recebe como um pai ausente.
Cada braço estendido é um pacto,
no qual ela reconhece o sabor do medo,
tudo o que sustenta em suas mãos.
Às vezes eu sou essa menina:
banquete descalço em tempos de pranto,
pele aberta para o mundo,
entre margens.
Ela cruza.
O vazio devolve
o frágil sopro da vida.
NOMEAR A CINZA
A ternura se transformou em pedra,
pelas costas de Deus.
Caiu
com ferro na boca,
buscando perdão
que não é uma oferenda
em solo frio.
Agora,
os pássaros sitiados
não conseguem encontrar um ninho.
Com os olhos fechados,
uma linhagem clama;
ela não quer morrer
por trás da inclinação:
onde está a fenda
que quer se abrir para o mundo?
A noite escura
é um trovão na ferida.
O hóspede está em silêncio,
sob o peito assassino
DESPERTAR
Ontem,
desenhava chamas em meus dedos.
A mancha aninhava-se
no fundo de cada traço,
como se o fogo soubesse
escrever seu próprio silêncio.
Resta apenas
a esperança
de que em outro céu,
sem nada esperar,
o dragão tenha despertado,
em frente à janela,
uma poça de mel.
Tudo canta,
suspenso
no olho de um girassol.
E por um momento,
a quietude respira.
Não há ferida
que não sonhe em se abrir
em direção à luz.



