Curadoria e tradução de Floriano Martins
Carolina Escobar Sarti (Guatemala, 1960). Escritora, poeta, colunista de jornal, pesquisadora social, defensora dos direitos humanos, professora universitária e, desde 2010, diretora nacional da Associação La Alianza, organização que trabalha de forma abrangente com crianças e adolescentes sobreviventes de violência sexual e tráfico de pessoas, tanto guatemaltecos quanto estrangeiros, com foco em sua proteção, prevenção, acesso à justiça e defesa de direitos. Possui doutorado em Sociologia e Ciência Política pela Universidade de Salamanca, especialização em Educação para População e Desenvolvimento pela FLACSO, mestrado em Literatura Latino-Americana pela Universidade Rafael Landívar e bacharelado em Letras pela Universidade do Valle.
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Ao reler o novo livro de Carolina Escobar Sarti com crescente fervor, adentra-se um mundo de poemas que multiplicam e expandem seu significado de maneira quase secreta. Eros e Tânatos são as presenças fundamentais desta expressão poética intensamente bela, como já o foram nos três livros anteriores de Carolina. Isso significa que sua escrita poética é uma continuidade aprofundada, na qual as palavras do poema CRIAM as experiências do amor como uma condenação feliz e melancólica, apaixonada e solitária, que são, ao mesmo tempo, sutis antecipações da morte. De um livro para o outro, ouve-se o murmúrio de um diálogo, por vezes mais audível e até visível, por assim dizer, quando Carolina reprocessa, enriquecendo-os no contexto de um novo poema, versos encontrados em seu primeiro livro ou fragmentos de um mais recente, que aqui servem como epígrafe reveladora: figuras sábias, fruto do rigor e da vigilância com a linguagem. Sempre inseparáveis de uma paixão criativa vivida autenticamente. A experiência deste leitor é melhor ilustrada, a meu ver, por um exemplo singular: Nós Não Somos Poetas começa — como seria de esperar — com um ÍNDICE ou exposição da ordem dos poemas. De fato, é, mas isso ocorre apenas em um primeiro nível; porque em outro nível, aquele que conta como um sucesso maior, este texto organizado como um ÍNDICE é, na verdade, um poema que desdobra uma poética provocativa em versos deslumbrantes. São versos de raro poder sugestivo, tanto pelo que indicam como títulos quanto pelo que emerge de cada um deles visto como um todo: nada menos que uma concepção do ser e da prática poética. Nestes versos, que poderíamos chamar de manchetes, Carolina intuiu o que o grande escritor Felisberto Hernández sentiu como um futuro poético, e esse futuro é a realidade dos poemas subsequentes do livro, muitos dos quais também projetam plenamente esse sentimento: Nós Não Somos Poetas é um livro de e sobre poesia, o poeta e a palavra poética — essa palavra dela e nossa, nascida do amor e para o amor.
PEDRO LASTRA (2006)
Carolina Escobar Sarti é uma das vozes poéticas femininas recentes que conseguiu se destacar em meio à constelação de jovens mulheres guatemaltecas que emergiram, especialmente nas duas últimas décadas do século XX, determinadas a fazer ouvir suas vozes em meio ao clamor comercial e político que silencia a palavra poética, até mesmo a expressão humana mais universal, como a poesia amorosa. (…)Palavras Sonâmbulas é, portanto, acima de tudo, uma confirmação e reafirmação de sua vocação, de seus temas e de seu estilo.
LUZ MÉNDEZ DE LA VEGA (2000)
O DISFARCE DAS BESTAS
Eu deveria ter te avisado.
Cuidado, criança,
pois as bestas
também se disfarçam
e não revelam
suas presas afiadas
nem as línguas que lambem
nem a saliva que escorre
dos cantos
de seus focinhos.
Cuidado, criança.
As bestas
se vestem com água
para limpar a urina
de suas peles velhas e desgastadas
em seus novos corpos.
Cuidado, criança.
Os disfarces de Asmodeus
são de ouro e têm asas,
mas por baixo delas há olhos de fogo
e bestas à espreita,
esfregando as patas
e afiando as garras
para sua próxima presa.
Cuidado, criança.
O disfarce da besta
pode ser o do seu irmão.
PRIMEIRO CHAMADO
Tenho medo de me perder.
É o primeiro chamado
antes da morte
e ela não responde.
O teatro está vazio
a cadeira dela está vazia
vês? Ela não está aqui.
Minha mãe não quis
vir à última
apresentação da minha peça.
Mal consigo respirar
e ela não vem,
eu a procuro
e ela não está aqui,
ligam para ela
e ela diz que não virá.
E eu quero que ela venha.
Eu devolvi o filho a ela
para que ela me amasse
e ela se esqueceu de mim,
eu destranquei os cadeados da prisão para ele
e com eles fechei
as janelas
da minha vida.
Eu queria minha mãe
aqui
segurando minha mão
porque estou com medo.
Eu sei como a peça termina.
E ela não vem.
SEGUNDA CHAMADA
As cortinas estão prestes a se abrir
neste teatro
do absurdo e da guerra.
Os senhores do poder
mais uma vez despedaçaram
as entranhas da terra
e as crianças, pela força
de explosões e mísseis. Ucrânia, Palestina,
à beira de outro abismo
e a obra que ameaça
ser reinterpretada.
Senhores do poder,
seres abomináveis,
matem-se uns aos outros,
odeiem-se uns aos outros,
reproduzam-se,
aniquilem-se uns aos outros,
indignam-se uns aos outros, abram suas barrigas,
medindo seus descendentes
e devorem-se uns aos outros,
destruam a terra e a flor,
conquistem os picos mais altos,
todas as galáxias,
e plantem bandeiras nelas.
Soem os tambores
e as bombas da nova guerra.
Encham a terra de pequenos cadáveres
e mordam sua nova
carne. Arranquem-nos
da esperança
e da vida; deixem a menina morta
saltar para o ar.
Vendam tudo, vendam-se a si mesmos,
aperfeiçoem a queda
e a escuridão
engula a Terra
beba toda a sua água
extinga toda a sua luz.
TERRA DE PRAIAS
Nesta terra de praias,
o amor desavergonhado,
a verdade sem limites,
e a rosa lilás com argumentos,
são os símbolos irredutíveis
da resistência.
SOL IMÓVEL
A noite foi longa.
Aqui,
não há ninguém sem uma dor
no porão da alma,
ou sem um sol ardendo
no sonho.
Guatemala ainda dorme,
sua alegria,
e as forças das trevas,
continuam a respirar,
em nossos pescoços.
Tantos continuam morrendo,
neste lugar,
que nunca criaram para si mesmos.
Tantos fogos-fátuos.
O sol permanece imóvel,
e a terra chove,
que testemunhará o nascimento de um mundo,
nosso, no qual desejaremos viver,
sonhar,
temer,
amar,
desejar,
brincar,
e morrer.
Antes que o mundo,
voe,
para o ar novamente,
seremos árvores de fogo,
erguendo-nos altivas com amor.
ANIMAIS INCOMUNS
O que somos nós
senão animais incomuns
ensaiando há eras
o que significa ser humano?
Buscadores de palavras
desenhando em labirintos
nossos nomes
e os de nossas divindades.
Guardiões do fogo
para sempre.
Bestas imperturbáveis
escapando da roleta russa
em nossa longa marcha
rumo ao espaço.
Desejo despertado
conquistando infinitos
aproximando o horizonte
do animal que um dia fomos
do corpo ardente que somos
da ternura sobrevivente
que um dia nos tornaremos.
À ÁRVORE, COM SEUS NINHOS
A vida desenha uma árvore/e a morte desenha outra./A vida desenha um ninho/e a morte o copia./A vida desenha um pássaro/para habitar o ninho/e a morte imediatamente/desenha outro pássaro.
ROBERTO JUARROZ (Poesia Vertical)
As pessoas me dão ninhos caídos.
Eles sabem
que o cheiro de passarinhos
sempre ilumina
minha esperança,
que aqueles lugares silenciosos
de galhos, líquens e penas
me lembram
que um mundo sem amor
é um mundo morto,
que cada ninho é uma profecia,
que às vezes eu não sou
desta terra
e preciso dobrar
minhas asas
para me encaixar, à força.
A árvore é conhecida
por seus ninhos,
e os ninhos
por sua simples
intenção do futuro.
Mas os pássaros partem
e não sabem que nós não sabemos
para onde eles voltarão.



