Curadoria e Tradução de Gladys Mendía
Andrés Vargas-Abellán (San José, Costa Rica, 1998). Áreas de interesse: Filosofia, Psicanálise e Literatura. Parte dos fundadores do periódico Argos.
[O ESPÍRITO TEM TRÊS PRINCÍPIOS]
O espírito tem três princípios:
O naufrágio que é encontro
A sombra que resplandece
Uma experiência interior do mundo.
1
Há um mar gelado em cada um
sobre a pele
resistente ao toque e ao esquecimento.
Sulcamos as águas, perdidos nas balsas
de nós mesmos, rumo ao eterno.
Entramos na noite branca, no sol negro,
sedentos de morna companhia.
Assim, diante da imensidão, nos assaltam.
Quantas rajadas de solidão e distância nos açoitam, hoje e sempre!
Mas ele sempre nos dizia: amemos as perguntas e tenhamos paciência na perda.
2
— Para V. E.
Há uma luz impossível para o olho
que se submerge em um coração
privado, fugitivo e solitário.
Há uma luz impossível para o olho.
O mundo se tece ao redor
num suspiro, desenfreado,
e o enxame se inclina solitário.
Talvez um perfil seja uma face do mundo.
Talvez a silhueta de uma perna, um universo.
Talvez sobre a seda negra que corta o tornozelo
se criem os sonhos, as esperanças ou o desastre.
Uma brisa pode ser uma experiência ilimitada.
Pode ser que um sorriso, um olhar negro,
ou o furto de uma alma desprevenida
seja a origem do inadvertido.
3
Desenhados sobre cumes
suspensos entre montanhas
estamos à espera de uma visão.
Passeamos pela vida
atentos a outro rosto
vigilantes na espera.
Se a Fortuna cair em seu lugar
talvez as pedras, como os humanos,
adivinhem sua canção.
Pedra,
se pudesses, quantas histórias
sobre cada uma de tuas camadas
nos confiarias, como se no fim,
na intimidade de teu segredo
pudesses sussurrar-nos um grão de nossa própria história.
Seria tua superfície nosso rosto,
teus brilhos os nossos.
Sofrerias porque sabes que nós,
ciumentos de nosso segredo,
nos tornaríamos surdos à tua sutileza.
Como se teu silêncio fosse tua culpa.



