Curadoria e tradução de Floriano Martins
Alba Metaponte (Itália/Chile, 1973). Nascida na Calábria, estudou Direito na Universidade de Bolonha. Traduziu importantes poetas latino-americanos, incluindo os chilenos Vicente Huidobro, Pablo Neruda, Nicanor Parra, Oscar Hahn e Jaime Huenún; as argentinas Alejandra Pizarnik e Olga Orozco; a uruguaia Marosa di Giorgio; a peruana Blanca Varela; e a mexicana Rosario Castellanos, entre muitos outros. Sua paixão pela poesia latino-americana começou aos 16 anos, quando recebeu um livro de poemas de Pablo Neruda, Odes Elementares. A leitura do livro fortaleceu enormemente sua atração pelo mundo, pelas tradições e pela literatura da América Latina. Assim começou sua jornada de estudo, leitura e descoberta de inúmeros autores, como o mexicano Juan Rulfo, o colombiano Gabriel García Márquez, Julio Cortázar e outras vozes importantes como César Vallejo e Jaime Sabines. Ela viveu muitos anos no Chile, onde teve a oportunidade de colaborar com grandes artistas. Em 2025, publicou seu primeiro livro, Los sueños no hablan si los despiertan, pela editora Edizioni Progetto Cultura, em Roma.
AS SONÂMBULAS
A menina de sapatos apertados arrastava sininhos para enfeitar sua imagem de vendedora de sonhos. As urtigas se agarravam aos seus saltos de lebre e exultavam de alegria, e como sanguessugas gravavam as formas da fome e da sede em sua pele branca. Ela vendia suas miragens a preço de banana: bonecas de papel com cabelos de verdade e andorinhas de açúcar. Comprei as de olhos fechados, as sonâmbulas de cabelos longos trançados com flores de sabugueiro. Pareciam damas de honra, noivas famintas, entorpecidas pelo brilho dos grãos de açúcar. O sol se rendeu às pálpebras lânguidas da aurora, e o vento, estendendo-se sobre o rio, saciou sua sede, brindando ao aniversário dos sonhos. Voltei para casa sem me despedir das estrelas; a última borboleta esvoaçou no eco de seu riso, uma obra póstuma da noite bordada nas asas de um anjo. Adormeci nos lábios de um duende, e a porta se fechou com meu último bocejo. Algo aconteceu naquela noite; eu nunca soube o que era aquele turbilhão furioso. O segredo estava confiado ao voo das pipas. As bonecas despertaram, arrastando seus corpos de papel do aparador para o chão, como caracóis frutados, deixando a cozinha coberta de saliva e xarope de sabugueiro. Sentaram-se famintas ao redor da mesa e falaram aos meus sonhos. Diga-me, criança, quem é a dama vestida de flores que vagueia pelo deserto perseguindo a ficção, a mesma que, vestida de mel, sopra o pólen do sol e busca seu caminho na astronomia dos pássaros?
Vimos um homem sem penas em um circo com uma máscara asteca; ele usa o verde dos seus olhos, masca tabaco e cospe sangue em seu chapéu de mágico, liberando deliciosos cadáveres de pássaros. Enquanto o horizonte se estendia nas veias da aurora, as velas irradiavam a última gota de escuridão. Hesitei no corpo do fogo, onde marionetes se refletiam, inspirando meu hálito em pequenos goles. Uma faísca voou até minha cabeça, brilhando como açúcar. Acordei em um circo, meu cabelo tinha crescido até os pés e, sobre minha longa juba, galopavam cavalos enlouquecidos que explodiam em chamas como toucinho em meu corpo de papel.
PRINCÍPIOS, PRECEITOS E REGRAS
Meu pai e eu chegamos ao consultório médico. A sala de espera estava lotada. Não nos sentamos; parecia supérfluo. Se tivéssemos pegado mais duas cadeiras, nossa espera teria sido mais longa. A ergonomia deu saltos gigantescos, e o conforto das cadeiras teria induzido um estado de relaxamento excessivo. Decidimos permanecer eretos, com o corpo na posição correta e o olhar fixo no teto escamoso, um monstro de fibra de vidro que graciosamente, quase silenciosamente, registrava todas as conversas absorvidas pelas paredes. Meu pai andava de um lado para o outro, sempre pisando nos mesmos azulejos com um ritual perturbador. Eu, por minha vez, mantive a nuca ao sol. As entradas e os corredores movimentados tinham semáforos imaginários para evitar que as pessoas colidissem no incessante pisoteio. Pessoas com problemas de visão só viam verde. Comecei a contar os passos dos sapatos entrando e saindo, e vice-versa. A vida é cheia de maravilhas como essa, a matemática dos passos. Os sapatos não deixavam pegadas, mas de uma sola se contorciam criaturas curvas, cilíndricas ou redondas. Algumas estavam dispostas em cubos, coloridas como invertebrados marinhos. Elas se moviam muito rápido em todas as direções, deixando um rastro pegajoso e multifacetado. Um par formou uma massa cinzenta na junta aberta do piso, debatendo-se e aparentemente sufocando. Não havia oxigênio, apenas setas direcionais. Uma delas se desprendeu, rastejou com dificuldade e finalmente deslizou para o bolso do infectologista, subindo lentamente o pomo de Adão como se estivesse escalando uma montanha, ofegando plasticamente. Reuniu coragem e, com a leveza de um atleta, lançou-se entre as fendas rosadas da úvula. O médico nos chamou.
PARA VINCENT
Meu querido amigo, no pátio do hospital de Arles vi um troféu macabro: um buquê de gladíolos manchado de sangue, e as tuas telas queimam na natureza-morta de um asilo. O que escrevo hoje é um punhado de terra seca encontrada em uma gaveta antiga onde eu havia relegado minha imaginação. O jardim murchou com sua ausência; as papoulas e os girassóis pairam à beira da morte. Partiste, deixando a última íris definhando em cobalto, depois de ter encerrado as cores nos interstícios do vazio. Não há vestígio de cinábrio nos torrões, mas a terra ainda fala sua língua com as sílabas dos espaços santificados em linhas ondulantes e paralelas. Tu, que conheces o vigor das estrelas, envia-me as cores que brotam de teus olhos, para que eu possa embelezar suas faces encovadas, a cartilagem do tamarindo, o lirismo da rosa-mosqueta. Eu poderia reunir em teu nome o bater de asas dos pássaros na abside da criação ou a suavidade sedosa do vento sobre o amarelo vibrante de Saint-Rémy. Que o voo dos pardais ecoe sobre a terra âmbar e que tuas mãos eternas se estendam como ciprestes, solícitas como frutos verdes que capturam as estrelas enlouquecidas e despertam as cinzas sagradas da oliveira. Duvido da tua transitoriedade como duvido de tudo o que é imortal. Alquimista que segura os frágeis ossos da noite com pinceladas nervosas, tu te escondes ao ar livre na extravagante obsessão pela luz, ilusionista flamenga, uma dama vestida de sombras roubou o encanto do teu céu estrelado onde agora te escondes, incrustada nas telas amarelo-ocres. A lua irrompe entre teus dedos e tu a pintas de olhos fechados, espalhando suas sementes que florescerão em amendoeiras de chita. Antes de se despedir, o sol traçará teu perfil amputado, oscilando como um amuleto sobre a paisagem do seu drama.
O MÁGICO
O mágico vivia em profunda solidão, saindo apenas para comprar comida e retornando rapidamente por uma rua estreita ladeada por dóceis árvores azuis. Às vezes, esquecia-se de algo, mas nunca voltava. Tinha profunda vergonha de seu rosto semelhante ao de um tatu, então só saía usando uma capa preta para escondê-lo. Ninguém jamais viu seu rosto. Ele só precisava dos olhos para se orientar. Suas pupilas dilatavam ou contraíam com as estações do ano. Sua vida era uma sequência de reviravoltas, uma liturgia sem regras que se transformava a cada instante, adornada com candelabros, escrituras sagradas e diversas decorações. O mágico só queria ser mágico e nada mais, mas não fazia figuras de fumaça para qualquer um, nem lançava feitiços para escravizar dragões, nem encantava as abelhas que lhe picavam o rosto. Ele girou e girou até ficar de costas para o mundo. Seu chapéu roubou-lhe o dia como um ladrão, e ali só aparecia a sua noite, sua companheira de dentes estrelados, seu ninho faminto por escuridão. E enquanto a lua uivava para os lobos, ele fazia cópias de si mesmo.
O ÚLTIMO VERÃO DE UMA MARGARIDA
Para Mariella
Era dia quando a tua noite chegou. Teu quarto tinha uma cortina de ferro, a lua crescia sem limites e depois encolhia, extinguindo o que restava em teus olhos. Disseram-me para cuidar de ti, então me escondi sob tuas pernas brancas e sem vida. Jazias ali em silêncio com um cravo branco no bolso. Teu teatro se fechou para sempre, e não tinhas mais plateia, apenas a multidão de flores que enchia teu caixão. Te lembras de como amavas as flores? Nós passeávamos por todos os jardins para admirar os bulbos redondos dos jacintos, e davas açúcar e doces a eles para fazê-los sorrir. Pegavas o sangue deles para regar os campos de girassóis; embriões brotariam das rosas de Damasco, e os comerias, deixando os prados sufocarem. Agora não falas comigo, mas ainda gostarias de me contar tuas histórias. Como quando me levaste ao cemitério para conversar com teu marido lunar. Nunca choraste na minha frente, deusa de mármore; veneravas plantas e animais, a lua crescente suspensa da África, os sorrisos sagrados dos antílopes. Não acreditavas em nada além do teu amor, irmã da morte. Não te esqueças, me disseste, de limpar tua lápide, teus olhos imortais de granito, e dançaste com a tua alma no deserto da Arábia. Jamais morreste sem ele. Mas agora eu te vejo tão sem vida, sozinha em teu vestido de lírios, sem raízes, sem solo, silenciosa sob os pilares do céu. Esta noite uma chuva de tulipas cairá em tua homenagem, borboletas se erguerão de teus pés congelados e flores de areia desabrocharão nos desertos. Oliveiras erguerão seus cálices ancestrais ao sorriso do céu e brindarão à tua vida.
MORTE DE UM TEXUGO
Jazias atrás de uma cortina de asfalto, teu corpo tão pesado como se estivesse repleto de medo do desconhecido. A primavera macabra te trouxe um caixão para tua estreia. A morte é encantadora, diziam os corvos. Ele está lá embaixo, deixaram-no na rua. O silêncio não respondeu, e eu também não. As vozes não cessaram: Ele está cercado por formigas que acariciam sua imobilidade, fitam suas mãos estendidas como cruzes, deixaram-no sozinho como se nunca tivesse nascido. A terra estava impregnada da mesma aura fúnebre que cobria a porta e as paredes da lua. Naquele dia, a morte buscou uma maneira de desenhar tua imagem e a encontrou em tua mímica, em tua inteligência como arquiteto das trevas, nas cavidades da terra, no choro de teus irmãos. Tu te tornaste tão pequeno quanto uma gota de sangue, e as moscas dançavam diante do teu caixão, o caixão de um viajante noturno. A noite, como um assassino implacável, te deteve em teu caminho, enquanto escapavas das sombras dos campos de milho em busca de tua liberdade. Ouça os ventos se misturando nos campos, os pássaros chorando no vazio criativo. Tua morte assustou os anjos adormecidos na terra, sob seus corredores cegos, onde agora borboletas semeiam minhocas em um lugar desabitado. Minha mão emergiu de debaixo do teu corpo; eu a contemplei por um instante que pareceu durar mil, e minhas lágrimas ardentes encharcaram teu corpo frio. Não a abandonarei com essa cinza de urtiga em teu peito, com essa ilusão do esquecimento. Deixarei teus passos se espalharem pelo ventre da terra, deixarei tuas raízes se dispersarem, e esperarei pela próxima primavera para encontrá-la no esplendor de uma flor de cerejeira branca, a mesma flor que te deixei em um dia de abril, encharcada de chuva e lágrimas.
DILÚVIO DO MISTÉRIO
Por qual vontade ou feitiço me foi designado um lugar na terra? No exílio, longe das estações do céu, sobre minha cabeça vive a identidade do silêncio; um enigma que divide a luz em duas, narra a marcha dos povos, os corpos que serão julgados pela história e o medo dos invernos frios em favelas suburbanas decadentes. Lançado nesta narrativa sem epílogo, eu também jazo sóbrio como a Eucaristia nas línguas das igrejas. Mas a crueldade me transpassa, as balas do tempo explodem diante dos meus olhos; eu poderia ter morrido sem conhecer a verdade! Ainda caminho, seduzido pelos caminhos da narrativa; alguém delira que já nascemos mortos, pobres almas emaranhadas entre os sábios espectros da criação!
Possuo apenas os anos passados e meus pés, discípulos da vertigem que se desvanece nas florestas violetas da imaginação. Sou um transeunte, um mero enfeite da narrativa, um prisioneiro da ignorância, um antigo exilado dos ancestrais, epígonos que se deleitam em visões dantescas. Se eu tivesse permanecido criança para sempre, teria combatido a decadência e a ignomínia desta terra com a simplicidade de um sorriso, o sacramento da inocência teria sido desfeito. Que ilusão sofisticada selou nossas bocas e costurou nossas línguas com teias de aranha? Alguém, do templo da razão, afirma que só se deve falar do que se sabe, e minhas palavras babam contra as janelas do proibido. Tudo pertence ao nada que gera revelações, êxtases, exéquias, montes de corpos e pedaços de carne expostos em vitrines de perplexidade.
Possuo apenas uma vestimenta improvisada para esta cerimônia, este desfile de mistério onde ficção e realidade são armadilhas atreladas aos fios da história. O mundo inteiro é distorcido pelo conhecimento. Mas o que é a ficção, esta velha viúva que implora à realidade que permaneça oculta como uma ruína no fundo do mar?
NÃO TENHO MAIS MEDO
Eu não estava preparado para o vazio quando um tiro me arrancou da terra. O murmúrio da água e o mugido dos cervos sobreviveram; eu me escondi nas ruas do crepúsculo, na monotonia celestial das flores murchas. Eu ainda não estava maduro para outra vida, mas meus gestos foram preservados no relicário da floresta, e eu me consagrei aos andarilhos de olhos proféticos. Vaguei como um sonâmbulo por todos os cenários possíveis, por naturezas-mortas e as formas mutáveis do ar. Meu corpo de mármore tornou-se uma árvore onde os pássaros faziam ninho. Senti brotos tenros crescendo das raízes do meu coração, agarrando-se à escassez dos meus ossos. Desprovido de sangue, minhas veias transbordavam de horizontes e paisagens. Meu rosto não mais ostentava caretas. Rifles jazem no chão, sufocados pela areia, e os soldados da infantaria com suas dolorosas incertezas. Minha voz não é mais sucata ou lixo, mas uma estrofe como a de uma flauta, uma lírica coral que ressoa nas inflorescências dos rouxinóis. Ao amanhecer, meus pés emplumados deslizam pelo caminho do sol. Minha respiração é um tremor que exala santuários de fênix, um suspiro que anima o salto dos grilos, a corrida audaciosa da lebre e o nascimento de uma flor tímida. De minhas mãos brotam igrejas de lírios, esculturas de vento e templos de salgueiros. Em meu ventre, o embrião do tempo parou em um altar de cores. A neve, com suas asas brancas, colocou um cetro de veludo sobre meu crânio. Minha despedida outonal transborda eternidade. Sonho como gladíolos de verão, mas a noite tem a firmeza de um tirano. O infinito ruge entre as apóstrofes da memória; preparo-me para a chegada do carrasco, emaranhada em minha sombra, não recuo. A chuva chega bem a tempo de roubar minhas lágrimas e alegrar a terra; gota a gota, o sol despiu a neve. Agora não sinto mais frio.
QUEBRA-CABEÇA
O homem cético sempre se perguntava em voz alta: Qual é o menor planeta de todos? A pergunta se emaranhava, se contorcia e se recompunha com ousadia, corpo e alma; ele encontrou um par de sapatos abandonados e começou a caminhar em direção à solução. Os sapatos trilhavam a estrada, que sorria, embriagada de poeira, e colidia com os minúsculos olhos das pedras, pequenas bolinhas de gude que o vento gosta de atirar em estranhos. As solas de borracha decidiram ficar presas no calçamento. O granito e o pórfiro disputavam os despojos; a pergunta capturou o focinho de um galgo, que a enterrou habilmente, e em poucos instantes, a pergunta, agora transformada, encontrou uma rajada de vento e se agarrou tenazmente às asas de um ganso azul-celeste. O anemômetro registrou uma velocidade tão alta que o ganso decidiu abandonar sua jornada pelo ar. Desceu à terra, migrou para terras distantes e, com ele, foi-se a pergunta. O homem cético perdeu, assim, seu grande enigma para sempre, até que um dia um pombo-correio, em busca de descrentes, deixou cair um ovo esmagado em suas mãos.
FENÔMENOS ATMOSFÉRICOS
Um dia, na rua paralela à minha casa, encontrei um homem caminhando ao meu lado em meio a uma tempestade inesperada. Ele não tinha guarda-chuva nem capa de chuva. Continuou seu caminho, e nenhuma gota molhou seus cabelos, suas roupas ou mesmo seus sapatos. O fato é que, às vezes, só existe o que é visível, mas cada pessoa vê o que pensa ou imagina. Assim, sob o mesmo céu, chovia e não chovia. Ele simplesmente não via a chuva, e a chuva não se importava. Voltei para casa, fechei bem a porta, me sequei, mas ainda estava molhado.
A FESTA DOS CORVOS
Fui convidado para a festa dos corvos. Uma mulher que eu nunca tinha visto aproximou-se de mim e, com uma voz irreal, disse: Eu te levarei comigo; caminharemos entre a vegetação das estrelas, além dos limites terrenos e entre as Colunas de Hércules. O céu, com seu passo ancestral, mostrará aos teus olhos a sua face, a artífice das estrelas.” Os frades do convento disseram que ela era uma freira, morta há muito tempo; mas eu a vi, ela estava lá, parecia adormecida! Seu corpo flutuava, movido pelo vento; seus passos eram pedras dormentes entre lírios-do-mar e pássaros-coral. Seu pescoço, flexível como o de um cisne, estendia-se até o topo dos ciprestes, que dormiam, encostados na noite. Entre os salgueiros, as corujas abriam os olhos da lua, mudando com todas as cores do arco-íris. O céu se movia em nossa direção, projetando uma silhueta; um palhaço de metal escondia seu sorriso no corpo de uma borboleta. O banquete começou à meia-noite. O caminho era uma imagem desfeita pelo tempo. Um daguerreótipo de rostos sagrados vibrava como um inseto. Nuvens cor de chumbo se desfaziam como pão perfumado. A poucos passos da casa, um portão dourado fechava a entrada. Pequenas carruagens de rosas escarlates carregavam seus botões para o museu das trevas. Um espantalho, brilhando de miséria, nos pediu um punhado de penas ou cabelo. Dei-lhe um pouco, e ele nos deixou passar. A freira viu Bruegel, o Velho, correndo em direção à Torre de Babel com uma Bíblia na mão. Um guardião espalhou aromas sagrados nos jardins da Babilônia, e Nínive se despiu entre nossos dedos, tijolo por tijolo, página por página. Entramos. Havia corvos por toda parte, um exército de corvos negros como azeviche cavalgando na escuridão sem levantar um grão de poeira. Alguns usavam tranças, outros eram carecas com chapéus de penas, outros usavam capacetes e escudos. Sentamo-nos ao redor da mesa de papel, adornada com rosas repletas de abelhas e castiçais de mel. A freira deu um pulo ao ver um pavão completamente branco, feito da mais fina renda, decorando os salões do céu. Pediu um pincel para pintar a festa, mas adormeceu na tela. Pensei que talvez ela nunca tivesse despertado de seu longo sono. A festa estava prestes a terminar, mas a pintura ganhou vida e se transformou em uma paisagem. A freira se dissolveu como açúcar, e o vento levou todos os grãos. Era amanhecer na paisagem de papel. Olhei para mim mesma no espelho do sol; eu tinha a aparência de um pássaro, e acima da minha cabeça cresciam penas tão negras quanto a noite.
OS ESTRANHOS
Com a mudança das estações, algumas espécies sentem a necessidade de migrar. Em minha casa também, algo mudou certa vez; alguns estranhos vieram nos visitar. Eles sempre chegavam no mesmo dia, no mesmo mês, na mesma hora. Às vezes eu estava ocupado fazendo alguma coisa e, de repente, olhava pela janela, dava uma olhada ao redor e nada era como antes. O céu parecia vivo, sustentado por pilares policromáticos, e eu pensava: Deve haver um arco-íris. Mas me lembrei de que naquele dia, nas primeiras horas da aurora azul, começou a celebração da infância. Lá fora, o sol abriu seus olhos cor de trigo, brincando de anjo, seu raio dourado atingindo as cabeças dos lírios, inundando o prado, espalhando seu véu sagrado sobre os frutos verdes. De repente, ouvi pequenos passos no quintal, um ruído espumoso, como a chegada de criaturas marinhas. Um bando de gaivotas inundou minha casa com humildes passos de milho e cachos de uvas brancas. Cansados da longa jornada, sentaram-se ao meu redor e disseram: Prepara-te! Coloque seu gorro azul-claro, pega tuas flores favoritas, deixa teu refúgio sombreado. Desta vez, continuarás a jornada na carruagem da aurora, retornarás ao sono, à tua velha memória de andorinha cega.
MEMÓRIAS
Colocaram-me em uma camisa de força e eu não percebi. Encontrei-me sentada perto da minha cama com os braços acorrentados e os olhos presos em um grito. Alguém ousou me colocar em uma camisa de força, e era grande demais, ainda tinha pregos. Eu queria tirá-la, tentei muitas vezes, mas não consegui. Meu corpo estava ereto na altura da lua, encolhendo. Todas as minhas roupas estavam apertadas demais. Minha saia desbotada, minhas sandálias de ferro, meu casaco de granito. No meu bolso eu tinha muitas chaves, mas nenhuma abriria aquela teia tecida de angústia. Meu coração também estava grande demais, mesmo que o tivessem costurado com mordidas. Eu o olhei; Era morno, da cor da névoa, e percorreu um caminho sem céu nem terra, sem som. Faltava-lhe calor e fôlego. Tiraram-no de mim, frio, com todas as suas garras, e ainda sangrava.



