2 Poemas de Jorge Enrique Adoum (Equador, 1926 – 2009)

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Curadoria e tradução de Floriano Martins

Um poeta mexicano convocou a todos para celebrar “o fim do comunismo” e um ideólogo do Pentágono anunciou “o fim da história”. Esta curiosa coincidência, na qual cada um dos termos parecia abolir a noção de inimigo, pode determinar uma espécie de vacância ideológica: se, por um lado, os poetas da profecia não têm o que oferecer a seus leitores – menos ainda a seus povos –, os que se encontravam comodamente na persistência do passado ficaram sem nada que justifique, de maneira convincente (porque o narcotráfico não basta), a intervenção estrangeira, os golpes de estado ou a interpretação militar da república como pátio de quartel, platônica somente na perseguição aos poetas. E com o assentamento desta ideológica terra de ninguém aumenta a fragmentação da América Latina: cada pedaço daquilo que podia ter sido nosso continente único, foi derivando devido à rotação da economia: o México se afasta de nós até o norte; a Espanha busca a Europa, ao invés de se apegar a nós; o Brasil nos dá as costas ao mirar, muito além do Atlântico, o mapa sonhado de sua própria prosperidade, tão grande, o mapa, que nele não há lugar para os países pequenos; a Argentina está frente à Arábia Saudita, junto daqueles que não estiveram com ela frente às Malvinas.

No continente da esperança se pôs fim a todas as utopias que nele situou este “gênero humano à parte” desde a invenção da América: de acordo com nossa específica maneira de ser, aqui a liberdade é uma consulta constante à polícia do mundo acerca do que nos está permitido, a democracia consiste em tolerar os assaltantes do poder e em perdoar os governantes delinquentes, o juramento de defender a soberania é prestado em uma base militar inimiga, o borrão do socialismo não se pode passar a limpo, no caso mais recente, devido à “arrogância da revolução” e está em perigo de se apagar, em outro caso, graças à reconciliação impossível do internacionalismo proletário com o retorno à economia de mercado. E, originais em tudo, o pêndulo político de nossos países se move para quatro lados, e assim vamos, do militarismo mais torpe ao popularismo mais canalha, à direita mais obscena, à socialdemocracia mais ineficaz. Daí que seja cabível pensar que acaso tenham levado a melhor os poetas que, não havendo se metido a profetas ou redentores, se conformam com um “instantâneo da realidade” (posto que não muda nem se move), sem pretender explicá-la; ou que, frente a uma sociedade covarde, tratam de restaurar hoje em dia a estátua rota do herói que espedaçou um patriotismo de escola primária; ou cantam a natureza bárbara da América, também despedaçada pelo capital, ou que dialogam com seus “demônios interiores”. Ou aqueles que persistem em uma busca de Deus, com o que têm, às vezes, relações de amantes que se reconciliam, sem que em suas rixas intervenham os fatos da história.

Na última década do século, se os poetas da América Latina – e entre eles incluo os indígenas que, após terem a boca tapada por durante quinhentos anos, parecem decididos, em alguns países pela primeira vez, em outros uma vez mais, a erguer a voz de sua reclamação e de seu canto – não são capazes de criar uma poesia que seja ao mesmo tempo ideologia e utopia factível, diferente, nossa, que somente nós possamos tornar realidade e que ninguém, senão nós próprios, possa destruir, seu papel na sociedade será ainda mais marginal do que nunca: até há pouco, ao menos para os jovens, a poesia era guia de caminhantes, livro de horas, manual do amante ou do guerrilheiro; hoje eles sequer levantam dúvidas sobre o homem ou sobre a poesia, e talvez tenham razão, ante o espetáculo desolado de nosso mundo, de preferir as ocupações lúdicas aos afazeres lúcidos. Pese a isto, me custa crer que tenha sido um poeta de minha idade, obscuro e anônimo, que escreveu em uma parede de Quito o que eu fui incapaz de expressar com todo este palavrório: “Quando já tinha respostas para a vida, modificaram-se as perguntas”.

Porém sempre me pareceram suspeitosos os poetas que, estando “de regresso” da esperança, se colocam contra a esperança, o que frequentemente conduz a escrever poemas nas costas de talões de cheque. Por isso, fiel a meu pessimismo combatente, prefiro recordar a história do príncipe que estava lendo um livro quando o verdugo lhe tocou o ombro dizendo que havia chegado o momento, e que, levantando-se, pôs um cortador de papéis para marcar a página, e depois fechou o livro. O tempo já deu uma palmada no ombro de nosso século: dentro de dez anos haverá de levantar-se e ir embora, deixando para depois as páginas não lidas dessa poesia escrita na borda de abismos imaginados que resultaram ser abismos verdadeiros.

JORGE ENRIQUE ADOUM // Trecho de “El papel del poeta en la última década del siglo”, conferência pronunciada no V Encuentro de Poetas Latinos. México, outubro de 1990. Revista Blanco Móvil # 46. México, janeiro de 1991.


VIRGEM

Sublunar, jacente, subjacente donzela
apaixonada pela pele e não pela chaga
de quem gritava sob a ferida.
Ao se machucar, talvez parecesse merecido.
Sangrando-te, continuaria dormindo o tigre
ainda azul de teu desejo, teu inconfessável
tigre?
Chamado por ti com tua vocação
de sede culpada que bebia em tuas mãos,
dizias querer ser feliz sob ele
e que nunca terias outro marido
“Tenho sido fiel, senhor”
Não sei
quando fugiste, onde
permaneci te amando acima do hábito
esperando que fosses um pouco mais
nua não tão menina.
Talvez
não me devias fidelidade alguma, com ele
não era pecado o mesmo que comigo,
mas em cada altar encontro a tua fotografia
com muitos mais vestidos e com uma auréola
que só eu vejo, subterrânea.


RETORNO FUGAZ

A cozinha ainda estava salpicada
de farinha e orações; a ama de leite
vestia o fantasma da noite,
buscava o itinerário das naves
que trouxeram de volta um vagabundo.

As imagens haviam mofado, envelhecido
o ruído. Nos grandes potes
o eco de vozes familiares repetia
a contagem do dinheiro. Conversas
de adultérios próximos, investimentos.

“Há um dia de luz lá fora, de humana
paz e maçãs. Há canções e avança
uma multidão que vive e cresce. Dela
é o reino do futuro. Quem é digno
agora merecerá esse dia e será amado.
Eu sei que horas são, qual o meu nome, aonde
vou cheio de orgulho e novidades.
E não estarei entre vocês por muito tempo.”

Não houve sacrifício de vinho ou cordeiro.
A mãe, entre duas lágrimas severas,
falou comigo para o meu bem, gentilmente indicou
o bom caminho, indagou se eu tinha outro chapéu.
Mas meu irmão, que costumava fazer flautas
Bem finas para acompanhar o canto dos semeadores
e que ainda temia a dureza da herança
e o olhar da coruja como um padre,
não conseguiu dormir.

                                                  “Eu quero merecer
o amor que viste. Quando
virá a felicidade?”
                                                  “Amanhã”.

E corremos, como dois fugitivos, até
a dura margem onde se desfaziam
as estrelas. Os pescadores falaram conosco
de vitórias sucessivas nas cidades vizinhas.
E uma espuma da madrugada molhou nossos pés,
repleta de nossas raízes e do mundo.

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