5 Poemas de Mara Pastor (Porto Rico, 1980)

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Curadoria e tradução de Floriano Martins

Mara Pastor (1980) é uma poeta, editora e professora porto-riquenha. Publicou uma dúzia de livros, incluindo Poemas para fomentar el turismo (Porto Rico, 2011, 2022; Argentina, 2016), Arcadian Boutique (México, 2015), Sal de magnífico (México, Porto Rico, 2015) e Deuda Natal (The University of Arizona Press, 2021), traduzido por María José Giménez e Anna Rosenwong, obra vencedora do Prêmio Ambroggio de 2020, concedido pela Academia de Poetas Americanos. Sua publicação mais recente é Las horas extras (La Impresora, 2023; Ediciones Neutrinos, 2024). Foi também contemplada com a bolsa Letras Boricuas em 2023. Possui bacharelado em Estudos Hispânicos pela Universidade de Porto Rico, mestrado em Literatura pela Universidade de Notre Dame e doutorado em Literatura pela Universidade de Michigan. Seus poemas foram publicados recentemente em revistas como Gatopardo, Latin American Literature Today e World Literature Today, entre outras. Ela criou um curso de poesia experimental para a Domestika. Atualmente, leciona no Programa de Escrita Criativa e Literatura da Universidade do Sagrado Coração em Santurce, Porto Rico.


A ROCHA SOBRE A QUAL EU VIVO

Este pedaço de terra
que comprei
a preço de banana
é rocha ígnea,
vulcânica.

Pego suas pedras
e penso:

Isso era lava.

Estava tão quente
que se eu não estivesse tão longe
teria morrido.

Era fogo. Um lugar
onde eu jamais viveria.

E veja só onde chegamos.


COSTAS E CIDADES

Às três da manhã,
recebo um e-mail de Moisés
assim que acordo
com o apagão e a tempestade.

Ele teve gêmeas no México

e elas têm nomes que começam com A

como cantoras e sereias.

Ele me conta sobre nascimentos e funerais,

eu conto a ele sobre furacões e tempestades.

Nós dois escrevemos um para o outro sobre terremotos.

“Você morreu?”

“Não, eu me reproduzi.”

Sobrevivemos a um amor
por mensagens esporádicas,

documentando nossa sobrevivência trêmula em costas e cidades poluídas
e cidades.


OUTRA VERSÃO DE OUSADIA

Um dia acordas e queres enfiar os dedos
em todas as tomadas, em todos os ventiladores,

se jogar de qualquer altura,

comer o plástico picado dos prendedores de roupa.

Há um forte instinto de morte em teu desejo de viver.

Às vezes tropeçamos em ti quando, como uma buganvília,
te enroscas em nossas pernas, determinado a se agarrar.

Um dia apertei tua fralda demais.

Teu pai queimou teu pezinho com a água da pia.

Arrancas impiedosamente as folhas do orégano

e depois mandas um beijo ou dás tchauzinho.

Agora também machucas, sem querer, o que amas.


UMA CONVERSA COM MINHA TRADUTORA

Para María José

Ela me diz:

—Leia este com uma cerveja bem gelada.

Eu o li enquanto dirigia,
ouvindo minha filha chorar
enquanto o sol brilhava em seu rosto.

Onde eu digo “jogando”,
ela diz “borda”,

e eu gosto do que ela diz.

Ela me diz
que não traduz bem o título.

E assim recuamos,
para outras formas que são iguais
mas diferentes.

Meu acompanhante pergunta
o que estou fazendo olhando
meu celular enquanto dirijo.

Eu gostaria de responder
que estou tomando uma cerveja.

Estou em alguma borda
de alguma palavra
que ainda não se assemelha a repouso.

Mas a minha tradutora gosta
quando traduz meus poemas
em florestas distantes,
plantando cariaquillos
ao lado da toranjeira.

É por isso também
que escrevemos, para que outra
pessoa possa habitar a margem
de alguma palavra
que não foi traduzida.


A METALÚRGICA

1.

Encontrar uma metalúrgica
em uma página de namoro
não me salva da crise energética,
embora ela tenha surgido
como um raio de minerais metálicos
de ligas não privatizadas.

Controle de qualidade dos seus beijos.

2.

Em A Forja de Vulcano,
Velázquez pinta Apolo
trazendo
notícias inesperadas
ao deus do fogo.

Vênus o engana
com aquele para quem ela faz o escudo.

Li que o suor
na virilha dos trabalhadores
naquela pintura é objeto de estudo.

A metalúrgica não conhece Velázquez,
mas conhece a matéria seca
que queima facilmente
quando o fogo passa pelos corpos.

3.

Na usina,
a metalúrgica cuida dos gatos,
conta os abacates em uma árvore,
e à noite
eles são roubados
enquanto os trabalhadores sonham
com barcos velozes
ao redor das ilhas de Salinas.

4.

A metalúrgica vai para o norte,
para a usina de Palo Seco.

Uma chuva torrencial despercebida,
sargaço gigante, um negócio obscuro
que passa despercebido. Ela diz:

“Adeus, nunca mais.”

“Quero te comer”, diz ela,

“mas o paraíso,

como a manutenção de caldeiras,

requer tempo

que não viaja pela fiação
sob o Atlântico.”

5.

Dei um cacto à metalúrgica,
algo para pintar de verde
o que conseguiu não ser calor
na hora em que a salamandra cantava.

Como pode um anfíbio ser o que coaxa?

Como pode um cacto ser
o que resta de dois corpos?

6.

Há uma camada ferrosa
de ferro indomável
que não entendo muito bem,
como apagões,
a perfeição da aorta
fixada à caixa torácica
de uma metalúrgica,
ou amor.

7.

“—Desta vez foi o primeiro gerador—”
diz um coro de membros do sindicato.

8.

A sala de controle
fica muito longe
das beiradas de aço
onde a metalúrgica
pinta seu autorretrato.

Não foram as algas
nem A mão do zelador.

9.

Quando as luzes se apagam,
acho que é de propósito
para que eu me lembre.

10.

Os poemas também não sabem o que fazer com a luz.

Para onde vai algo
que não diz adeus?

Eu me acostumo com a escuridão
por um tempo. Apenas o brilho distante
da lua minguante
penetra o quarto úmido
onde a metalúrgica uma vez
mordeu minhas costas três vezes
deixando uma linha de dentes
na altura do trapézio,
de onde brotariam asas
se não fôssemos
estes animais.

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