Maritza Cino Alvear (Equador, 1957)

| | ,

Curadoria e tradução de Floriano Martins

A poesia se instalou em mim desde cedo como algo semelhante ao jogo. Foi também uma forma de auto-comunicação e de significação na metáfora, uma ausência ontológica, que encontrou nos malabarismos da linguagem outra forma de redenção e, principalmente, de iniciação à escrita.

Considero que a minha obra poética tem um hibridismo entre dizer e meio dizer, onde subjazem temas atemporais da existência que se tornam busca e exploração por imagens que constroem e desconstroem, alterando e violando as possibilidades do poema.


A escrita poética me permitiu domar/revelar meus duelos existenciais e me incitou a um encontro cada vez mais simbiótico e indissolúvel com a palavra e com seu sentido polissêmico; transgredindo os silêncios e medos ancestrais, liberando minha identidade.

MARITZA CINO ALVEAR
“Algo parecido al juego”, Esferas del tiempo, 2020.


SETE LÍNGUAS

Era quinta-feira e eu permanecia na estação. Sobrevivia, cuidada por gigantes e anões que pareciam se desintegrar quando a noite chegava. Eu seguia, assim como na segunda, terça, quarta e todos os dias do calendário, ao lado de entidades com pés gigantes e anões que se moviam sorrindo em um território onde aprendi a soletrar línguas apócrifas. No primeiro dia, tropecei no silêncio; no segundo contornei o abismo; no terceiro, falsifiquei um fonema. Os seguintes começaram a desmoronar sobre folhas lívidas e anárquicas em um ciclone de fogo. Era quinta-feira e eu ainda permanecia na estação, contida, extasiada com gigantes e anões, esperando um chamado bíblico ou pagão que me surpreendesse, brincando de marcianos com meu amuleto de costume.


DO OUTRO LADO

Quando eu comecei a te ler, imaginei que estavas do outro lado
E me deixei levar por tua maneira de me contar e falar desde a opacidade do desterro
Eu te leio e apareces como uma vasilha irreprimível onde nossos olhos se enfrentam
sem que se reconheçam / sem que se toquem / sem que legitimem uma escrita
da qual me aproximo com passos de arqueóloga
sem uma pista que revele o que ainda está cifrado.
Desconheces que estou aqui
do outro lado /
sem uma pista que te aproxime
deste porto de retiros e distâncias
sem que voz alguma vaticine tua existência
sem que eu perceba em tua palavra
sinais de vitória.


TRANSE 4

Com suor feroz, desarticulo as partículas dos sonhos
vou montando essa unidade possível
essa pulsão de fragmentos que fluem de qualquer ponto
e se transformam em linhas de água
com a ira do último dia
chegam mais imagens febris
larvas que expelem resíduos
e me advirto como um fantasma incompleto
que coleta margaridas em um deserto encantado
que aspira e respira o ar aleatório da inconsciência
circundo a casca decapitada
para ver se há algo primitivo/despojado
de alguma gaveta de jogos iniciais
ou de outra zona alheia da espessura
percorro as esquinas com intensidade lunática
avanço em direção à estação que me foi negada
onde os saguões acalmam as pálpebras
onde jaz uma pausa que me leva à claraboia da infância
por ali surge como uma faca
que reduz outra unidade possível:
lágrima do ventre / piscadela do bufão
o movimento do fonema.

Deixe um comentário

error

Gostando da leitura? :) Compartilhe!